quarta-feira, maio 21, 2008

Bomba verde: florestas tropicais não estão diminuindo

Alerta em Rede - ‘Bomba verde’: florestas tropicais não estão diminuindo

Aquecimento global? Melhor se preparar para um resfriamento

MSIa - Aquecimento global? Melhor se preparar para um resfriamento

'Aquecimento global' pegou um resfriado...

Alerta em Rede - 'Aquecimento global' pegou um resfriado...

quinta-feira, maio 01, 2008

Ciclos de Milankovitch
O leitor que colocou várias questões diz: «Por outro lado, tenho formado a ideia que o planeta tem o seu ritmo climático de muito longo prazo (para uma escala humana), com um respirar profundo que o leva a oscilar entre o quente e o frio (eras glaciárias), e que isso obviamente aconteceu sem qualquer intervenção humana.
»O leitor tem razão. No fundo, está a colocar a questão que os estudiosos das eras glaciárias colocaram há bastante tempo. A resolução para esta dúvida foi apresentada por Milutin Milankovitch. O blogue ocupou-se deste cientista nos seguintes posts:
A teoria dos ciclos de Milankovitch explica os períodos glaciários e os períodos interglaciários. Vivemos num período interglaciário. Em 1850 o planeta saiu de um pequeno período glaciário conhecido por LIA-Litlle Ice Age.
A teoria dos anticiclones móveis polares também explica a entrada numa era glaciária pelo aumento da sua actividade que vai transformando o vapor de água da atmosfera em massas de gelo.
Já se disse anteriormente que, guardadas as devidas proporções, os acontecimentos verificados desde o shift climático dos anos 70 do século passado assemelham-se ao prólogo de uma era de gelo. Nada de sustos porque isso demoraria muitos anos…
A atmosfera seca poderia ser uma característica dessa hipótese. O potencial precipitável estaria a transformar-se em tempestades de neve em certas regiões. Noutras faltaria a precipitação normal.
Tudo isto é apenas uma hipótese que mereceria um estudo profundo. No mês de Fevereiro do ano passado, perante as tempestades de neve que chegaram a invadir a Espanha e atingir o Magrebe, uma docente da Universidade do Minho afirmou a um jornal que parecia a entrada numa era glaciária. O jornalista fez troça… A sua mente está subjugada pelo global warming.

quarta-feira, abril 23, 2008

Os novos índices da Aids

A julgar pelos cálculos do último ano, a velocidade de disseminação da epidemia mundial de Aids parece ter arrefecido. Dois grupos da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicaram estimativas a respeito do número de pessoas HIV-positivas que contradizem previsões anteriores. Segundo ambos os estudos, haveria hoje 33,2 milhões de infectados, ao contrário dos 39,5 milhões citados nas estatísticas de 2006.
O número anual de novas infecções também teria caído: 4,3 milhões de novos casos em 2006, ante 2,5 milhões em 2007.De acordo com essas avaliações, a incidência mundial teria alcançado o pico na segunda metade dos anos 1990.
Embora favoráveis, os dados não devem gerar otimismo. Parcela significante das previsões anunciadas pelo Joint United Nations Programme on HIV/Aids (Unaids) e pela OMS resulta do fato de que as anteriores estavam exageradas. Um entendimento mais abrangente da dinâmica de transmissão da infecção combinado com o aperfeiçoamento dos métodos de cálculo da prevalência do HIV justificaria as quedas documentadas nos relatórios de 2007.
Mudanças comportamentais que levaram à adoção de medidas preventivas, como prática de sexo seguro e abandono do uso de drogas injetáveis, contribuíram para as reduções observadas em alguns países, mas não conseguem explicar os resultados globais.
As diferenças levaram alguns críticos a atribuí-las à manipulação anterior dos dados pelas agências internacionais, com o objetivo de obter fundos mais generosos para o combate da epidemia. Os técnicos do Unaids e da OMS negam com ênfase tal acusação; defendem-se justificando que trabalham com as informações mais confiáveis disponíveis ao fim de cada ano.
Cerca de 70% da queda do número de infectados veio de Angola, Índia, Quênia, Moçambique, Nigéria e Zimbábue. Na Índia, ocorreu a mudança mais significativa: 5,7 milhões de infectados nas estimativas de 2006 e 2,5 milhões nas atuais.
No Zimbábue e no Quênia, parte da redução está relacionada com a adoção de práticas de sexo seguro. Em outros países, no entanto, a justificativa está na identificação mais acurada dos portadores do vírus através de centros-sentinela distribuídos em áreas mais remotas. Apenas na Índia, hoje existem 1.100 desses centros, ante 155 no fim dos anos 1990.
Os inquéritos epidemiológicos mais recentes revelaram que aqueles do passado, ao extrapolar para a população geral a predominância encontrada em clínicas de atendimento pré-natal, inflacionavam a parcela de infectados em cerca de 20%, uma vez que não levavam em conta a prevalência mais baixa nas mulheres sexualmente inativas, nas que só praticam sexo seguro e nos homens.
Nem todas as taxas caíram, entretanto. Nos países do Leste e da região central da Ásia, a prevalência aumentou 150%, desde 2001. Cerca de 90% dessas novas infecções aconteceram na Rússia e na Ucrânia. No Vietnã, a prevalência duplicou entre 2000 e 2005. Na Indonésia, a velocidade de propagação é a mais rápida do continente asiático. Surgiu mais um dado importante nesses estudos: sem tratamento, a infecção pelo HIV leva, em média, 11 anos para manifestar os primeiros sintomas, ao contrário dos nove anos, como se supunha. Essa velocidade mais lenta de progressão para as fases sintomáticas da Aids modifica os índices de mortalidade. O uso de medicamentos contra o vírus, hoje disponíveis para mais de 2 milhões de portadores que vivem em países de renda per capita baixa ou intermediária, também contribui para a redução da mortalidade: 2,9 milhões de óbitos em 2006, ante 2,1 milhões em 2007.
Estatísticas otimistas à parte, a existência de 33 milhões de portadores de um vírus sexualmente transmissível causador de uma infecção incurável, controlada com dificuldade apenas por meio do uso contínuo de medicamentos causadores de efeitos indesejáveis, acessíveis mundialmente a uma parcela ínfima dos infectados, dá uma dimensão da tragédia humana provocada pela epidemia.

Sismicidade brasileira

Sismicidade brasileira
Terremotos no Brasil

sábado, abril 19, 2008

A TRAGÉDIA ECOLÓGICA DO MAR DE ARAL




* Rama Sampath Kumar

O Mar de Aral, um lago terminal alimentado por dois rios principais, (Sirdaria e Amudaria) forma uma fronteira natural entre o Kasaquistão e o Uzbequistão. Era, em 1960, o quarto maior lago mundial; hoje, está em vias de desaparecer num pequeno e sujo poço. A destruição do Mar de Aral é um exemplo de como uma tragédia ambiental e humanitária pode ameaçar rapidamente toda uma região. Tal destruição constitui um caso clássico de desenvolvimento não-sustentado. Vale a pena estudá-lo, pois, de certa forma, prefigura o que poderá acontecer a nível planetário se a humanidade continuar a desperdiçar recursos finitos como a água.

O Mar de Aral e toda a bacia do lago ganharam notoriedade mundial como uma das maiores degradações ambientais do Século XX causadas pelo homem. A União Geográfica Internacional destacou a bacia Aral, nos começos dos anos 90, como uma das zonas críticas da terra [Kasperson, 1995]. É também referida como a “Chernobyl Calada”, uma catástrofe silenciosa que evoluiu lentamente, quase imperceptivelmente, ao longo das últimas décadas [Glantz e Zonn, 1991]. A redução do Mar de Aral captou a atenção e o interesse de governos, organizações ambientais e de desenvolvimento, leigos e comunicação social nos últimos anos em todo o mundo [Ellis, 1990]. A partir de meados dos anos 80, quando os soviéticos abriram as portas ao abrigo da política da glasnost (abertura), a situação do Mar de Aral ganhou a fama, junto à comunidade internacional, de calamidade ambiental [Glantz, 1998]. Desde então os cientistas têm exigido energicamente a salvação do Mar de Aral. Infelizmente, a essa altura, o Mar de Aral estava reduzido a um terço do seu tamanho original. Apesar de ser novamente motivo da comunicação social mundial, e debatido, com uma nova abertura na União Soviética, era uma situação de crise conhecida que estava na agenda dos políticos da Federação por mais de 30 anos. [1]

O Mar de Aral antes de 1960

O Mar de Aral fica situado a aproximadamente 600 km do Mar Cáspio. Existiam mais de 1.100 ilhas, separadas por lagoas e estreitos apertados, que deram ao mar o seu nome; na língua kasaque, Aral significa 'ilha'. No presente, a Kok Aral, a maior de todas as ilhas (agora uma península) dispersas pelo Mar de Aral, separa a parte nordeste, chamada Pequeno Aral, da parte sudoeste, chamada o Grande Aral. Esta forma a fronteira natural entre Kasaquistão e Uzbequistão, que partilham entre si o lago. As duas partes estão ligadas pelo estreito de Berg. O Mar de Aral era, até 1960, o quarto maior lago do mundo, cobria uma área de 66 mil quilômetros quadrados, com um volume estimado de mais de 1.000 km³ [Kabori e Glantz, 1998]. Embora seja chamado um mar, na realidade é um lago terminal, alimentado por dois rios principais: Sirdaria no norte e Amudaria no sul. Este último, o maior rio da região, começa nas montanhas de Kunlun na cordilheira Hindu Cushe, dirige-se para noroeste através dos Montes Pamir e depois passa pelo Kirguizistão, Tadjiquistão, Uzbequistão (que forma fronteira com o Afeganistão), Turkmenistão, e volta a passar por Uzbequistão antes de entrar no Mar de Aral. O Sirdaria que começa na base norte das montanhas Tien Shan no Kirguizistão, corre através de Tadjiquistão, Uzbequistão, Kasaquistão e depois entra no Mar de Aral [Islamov, 1998]. Por conseguinte, embora o Mar de Aral se situe entre Uzbequistão e Kasaquistão, todos os cinco estados da Ásia Central compartilham a bacia do Mar de Aral, uma área de 690 mil quilômetros quadrados. [2] Os caudais destes dois sistemas fluviais perenes, sustentavam um nível estável no Mar de Aral. Ao longo dos séculos, cerca de metade do caudal dos dois rios alcançou o Mar de Aral.

Um vasto delta sustentava uma prolífica atividade pesqueira. [3] No lago, encontrava-se uma grande variedade de espécies de peixes, incluindo algumas espécies que só existiam no Mar de Aral, entre eles o famoso esturjão de Aral. As suas águas alimentavam indústrias de pesca locais com capturas superiores a 40 mil toneladas anuais, enquanto os deltas dos seus principais afluentes abrigavam dezenas de lagos menores e terrenos alagadiços de grande riqueza biológica. Florestas cerradas de juncos e canas, algumas vezes estendendo-se vários quilômetros na direção do mar, rodeavam as margens do lago. À volta do lago e no delta fluvial, viviam grandes populações de saikas (antílopes), javalis selvagens, lobos, raposas, almíscares, perus, gansos e patos.

O Mar Aral era como um grande oásis no deserto. Durante muitos séculos, as estepes e as regiões semidesertas abrigaram vários grupos étnicos. Antes da chegada da Rússia imperial, a população que vivia na área do Mar de Aral era, predominantemente, nômade. Este modo de vida era, até certo ponto, essencial, devido às condições de desertificação ambiental. O clima é fortemente continental e a paisagem é do tipo semideserto. A precipitação anual é de cerca de 200 mm. Não é possível haver agricultura com esta quantidade de chuva. Somente na zona perto dos dois rios era possível ter agricultura e por esse motivo, as pessoas que estavam afastadas das margens dos rios, viviam unicamente da criação de gado. A primeira tarefa do governo imperial russo foi fixar a população em comunidades agrícolas. Perceberam que uma terra seria boa para agricultura se houvesse água disponível. No final do século XIX, cultivou-se algodão a uma relativamente larga escala quando se introduziram novas tecnologias de irrigação. Foram abertos canais para facilitar o processo de irrigação e uma boa proporção da produção agrícola da Ásia central estava completamente dependente da irrigação.

Nos anos que se seguiram à Revolução Bolchevique cresceu o interesse na irrigação dos territórios da Ásia central. A área irrigada foi extensivamente desenvolvida nos começos dos anos 20, pois os soviéticos estavam interessados em aumentar a produção do algodão. Em 1918, Lenine emitiu uma proclamação pedindo mais algodão do Turquestão. Além disto pretendiam controlar a população rural. Nos finais dos anos 30, sob o comando de Stalin, o ministro soviético da água iniciou um projeto maciço de desvio da água a fim de irrigar as estepes do Uzbequistão, Kasaquistão e Turkmenistão para os preparar para a cultura do algodão. O primeiro grande projeto de irrigação iniciou a operação em 1939 com a construção do canal que rodeava o Vale de Ferghana no Uzbequistão. A caminho dos finais dos anos 40, grandes quantidades de água do Rio Sirdaria foram desviadas para fins agrícolas para Kizil-Orda no Kasaquistão e para uma zona perto de Tashkent no Uzbequistão [Altan, 1995] . A produção agrícola ao longo do Sirdaria foi preparada e iniciada, com trágicas conseqüências para a cultura nômade kasaque. O programa de propriedade coletiva de Stalin atingiu duramente os kasaques e calcula-se que mais de um milhão de pessoas morreram ou abandonaram a região dirigindo-se para países a sul do Kasaquistão. Os kasaques que ficaram não possuíam os conhecimentos necessários nem tradição agrícola, por isso tiveram importar peritos. [4] Como os camponeses da Ásia central não aceitaram a propriedade coletiva e a industrialização da agricultura, a produção de algodão no Uzbequistão e de trigo/arroz no Kasaquistão não aumentou até perto do começo dos anos 40 [Hav, 1998]. .

Após a morte de Stalin em 1953, os seus sucessores, Nikita Khrushchev e, mais tarde, Leonid Brezhnev, prosseguiram a mesma política soviética na Ásia central, convertendo ainda mais terra arável para a produção de algodão. Entre os finais dos anos 50 e 1970 completaram-se vários canais de larga escala para atenderem à estas expansões da monocultura do algodão: o Canal Qara-Qum de 800 km, de Amudaria até Ashkhabad, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o Canal Chu no Kirguizistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik que serve Tadjiquistão [Blake, 2002]. No final dos anos 50, Moscou instituiu um regime de monocultura do algodão, resultando daí que todo o modo de vida se concentrou na produção de algodão, com poucos benefícios para a população e a destruição das tradições culturais indígenas. Nikita Khrushchev (1953-1964) estava pessoalmente fascinado por uma agricultura que não necessitasse de adubos e que pudesse ser feita em solos arenosos, utilizando apenas grandes quantidades de água. Tanto o Kasaquistão como o Uzbequistão possuíam vastas áreas de solos arenosos e os dois que os cruzavam possuíam enorme vazão. Foi iniciado um programa para tornar a União Soviética auto-suficiente em trigo e algodão. O algodão requer um clima quente e foi por isso que a produção de algodão foi instalada no Uzbequistão, irrigada pelas águas do Amudaria. A produção de trigo, cevada, milho-miúdo e arroz foi colocada principalmente ao longo do Sirdaria e do seu sistema de irrigação no Kasaquistão.

A bacia de drenagem do Mar de Aral se tornou rapidamente em uma bacia muito importante para a agricultura soviética. Durante milênios, os povos converteram, com êxito, pela irrigação, paisagens desertas em terras agrícolas. Embora a agricultura irrigada da bacia do Mar de Aral tivesse começado com as conquistas tzaristas dos séculos XVIII e XIX, a irrigação no tempo dos soviéticos era diferente, pois utilizava grandes quantidades de água desviadas dos principais rios da região. Projetos de irrigação a montante, para a produção de algodão e arroz, consumiam, como esponjas, mais de 90% da vazão natural destes rios. Chegou-se a tal ponto que, no começo dos finais dos anos 70, nenhuma água do Sirdaria chegava ao Mar de Aral e o Amudaria fornecia apenas um volume mínimo que decrescia constantemente [Bedford, 1996]. Somando-se a isto a elevada evaporação, estas terras concentraram muita salinidade. Para limpar o sal destes solos, construíram-se canais de drenagem que provaram ser inadequados. Grandes desvios, más construções de sistemas de irrigação, má conservação e gestão errada dos recursos hídricos, são apontados como causas principais para a diminuição da vazão que entra no Mar de Aral o que, por sua vez, alterou o equilíbrio ecológico existente.

Morte do Mar de Aral

É publicamente aceito que esta morte trágica do Mar de Aral começou em 1960. Foi o ano em que os projetistas de Moscou inauguraram o Projeto do Mar de Aral, um ambicioso programa econômico que visava a conversão de terrenos baldios na cintura do algodão da União Soviética. Os projetistas atribuíram à Ásia central o papel de fornecedor de matérias-primas, em especial de algodão. Isto conduziu a uma redução substancial de semeaduras de colheitas tradicionais como a alfafa e de plantas que se cultivavam para fornecer óleo vegetal. Pomares e árvores de amoras foram arrancados para permitir plantar mais algodão. O desejo de expandir a produção de algodão para as terras desertas aumentou a dependência da Ásia central da irrigação, especialmente do Uzbequistão.

O Mar de Aral e os seus afluentes pareciam ser uma fonte inesgotável de água. Foram abertos canais de grande extensão para espalhar as águas dos Amudaria e Sirdaria por todo o solo desértico. A área irrigada aumentou a sua superfície em menos de uma década para 6,9 milhões de hectares: metade dessas terras produziam algodão e a outra metade arroz, trigo, milho, frutas, legumes e forragens para o gado. Não é necessário dizer-se que a agricultura irrigada não foi planejada com o propósito de destruir a natureza. Gerando um enorme rendimento, a agricultura irrigada constituiu um sucesso formidável. Segundo Moscou, os anos iniciais do projeto foram uma proeza. As quotas de produção do algodão e de outros produtos eram realizadas ou excedidas ano após ano. A bacia do Mar de Aral tornou-se o principal fornecedor do país de produtos frescos. Os rendimentos nas cinco repúblicas da Ásia central que compartilhavam a bacia - Kasaquistão e Uzbequistão, ao redor das margens do Mar de Aral e Kirguizistão, Tadjiquistão e Turkmenistão ao sul na bacia hidrográfica dos rios Amudaria e Sirdaria - aumentavam regularmente. De 1940 a 1980, a produção de algodão soviético aumentou de 2,24 para 9,1 milhões de toneladas. A maior parte deste algodão era proveniente do Uzbequistão, Turkmenistão e Tadjiquistão, que, conjuntamente, eram responsáveis por quase 90% de toda a produção soviética [Critchlow,199].

As complicações surgiram porque a contração do Mar de Aral, e outras conseqüências causadas pela irrigação tinham sido tratadas como questões sem importância pelas autoridades até 1970. Não foi o projeto em si, mas antes os métodos agrícolas mal concebidos e mal geridos que destruíram a economia, saúde e ecologia da bacia do Mar de Aral, afetando milhões de pessoas. Foram construídos numerosos canais e a construção de várias barragens foi feita precipitadamente. Por volta de 1978, uma extensa rede de canais de irrigação estendeu-se peles desertos para matar a sede ao algodão ao longo de 7,7 milhões de hectares, principalmente no Uzbequistão. Os canais principais e secundários foram escavados na areia sem terem sido colocadas dutos tubulares ou concretagem. Também não se prestou importância à drenagem dos solos. Periodicamente eram fechadas as comportas e a água era dirigida diretamente para os campos, um sistema que causava uma enorme perda de água. Menos de 10% da água drenada era diretamente benéfica para a colheita. A restante desaparecia no solo arenosos ou evaporava-se. Foram estes programas largamente ineficazes que eram adaptados para satisfazer a enorme procura de água que, por fim, resultaram na secagem do Mar de Aral. Tendo como resultado a queda do de nível do Mar de Aral que supostamente poderia ser remediada por projetos ambiciosos de desvio de rios no norte da Rússia. Esses projetos nunca se realizaram e o lago continuou a secar ano após ano. O resultado foi catastrófico, e a irrigação que fez florescer o deserto e aumentar os rendimentos, pôs em marcha uma desastrosa cadeia de acontecimentos logo detectados na descida dos níveis de água e no declínio das capturas de peixe.

Portanto, infelizmente, em vinte anos, o quarto maior mar interior da terra passou a ser uma planura de sal, seca, contaminada e tóxica. A crise ecológica na área do Mar de Aral atinge agora a que foi a fértil república autônoma do Karakalpaquistão no Uzbequistão, Tashauz Velayat no norte do Turkmenistão e Kzyl Orda Oblast na parte ocidental do Kasaquistão. Toda esta região foi atacada por um dos piores desastres ambientais. Antes de 1960, entravam no Mar de Aral 55 bilhões de metros cúbicos de água, conservando-o a um nível saudável. Durante os anos 80, a média da vazão que corria para o lago era de apenas 7 bilhões de m³. Recentemente, apenas de 1 a 5 bilhões de m³ chegam anualmente ao lago. Perderam-se desde 1960, 75% do volume do lago, e há fortes receios de que secará totalmente por volta de 2015. No passado, o Mar de Aral oscilava em resposta às condições climáticas no mundo, subindo quando os glaciais derretiam e descendo quando se formavam. Em condições naturais o Mar de Aral subiria neste momento - o Mar Cáspio que se encontra próximo subiu 2 metros desde 1977 devido ao aumento da precipitação e diminuição da evaporação.

Degradação Ambiental

Tem sido publicamente reconhecido que a degradação ambiental da bacia do Mar de Aral é o resultado do tributo soviético ao Rei Algodão. A utilização descontrolada dos recursos hídricos dos rios conduziu a perdas graves no equilíbrio entre as fontes naturais de água nos ecossistemas e a utilização da água na irrigação agrícola. Os desvios de água dos dois principais rios regionais roubaram do lago e dos deltas o reabastecimento anual de água fresca. A salinidade da água do rio é inferior a 0,7 por mil, enquanto a água no Mar de Aral era salobra, com uma salinidade de aproximadamente 9 por mil. O sal no Mar de Aral era principalmente causado pela grande evaporação, e, parcialmente, pelo fato da água nos terrenos circundantes ao Mar de Aral ser salgada. [5] A salinidade era controlada devido à grande quantidade de água fresca proveniente dos rios Sirdaria e Amudaria. O calor de verão causava (e ainda causa) uma grande evaporação, que era a razão do bom clima ao redor de Aral antes da secagem do lago. À medida que as águas eram desviadas dos rios que alimentavam o Mar de Aral, generalizou-se a salinidade.

Os problemas ambientais criados pela secagem do Mar de Aral, para além da salinidade dos solos, incluem: aumento da salinidade da água do lago, erosão pelo vento, tempestades de poeiras salgadas, destruição dos leitos de desova dos peixes, colapso da indústria pesqueira, terras encharcadas, interrupção da navegação, divisão do lago em partes separadas, perda da vida selvagem nas áreas do litoral, grande redução de caudais dos dois afluentes principais, necessidade de recursos extras na bacia hidrográfica para estabilizar o nível do lago, alteração do clima regional, desaparecimento das terras de pastagem, e daí por diante. Todos estes graves problemas ambientais afetam a economia da região; uma situação combinada com médias elevadas de crescimento populacional. Viviam na zona, no começo do século XX, 8 milhões de pessoas. Desde então, a população da região aumentou para 50 milhões e a terra irrigada atingiu 7,7 milhões de hectares. Em seguida, apresentam-se discussões sobre as questões principais.

a) Desertificação: Conforme já foi descrito, a culpa da catastrófica dissecação do Mar de Aral é atribuída aos colossais projetos de irrigação na Ásia central durante o tempo dos sovietes. Como o nível do Mar de Aral desceu de 53 metros acima do nível do mar para 36 metros, a área da sua superfície encolheu para metade e o seu volume para três-quartos. A concentração salina duplicou. Em resultado disto, em complemento à queda dos níveis de água, a grande quantidade de terras irrigadas começou, a dada altura, a reduzir a sua produtividade devido à salinidade. Este fenômeno tem o nome de desertificação do Mar de Aral. A maioria das partes do fundo seco do lago está coberta de depósitos de bilhões de toneladas de sais tóxicos, trazidos para ali ao longo de décadas por águas infiltradas nos rios através dos campos. A área do fundo seco do lago, conhecida localmente por “deserto de Aralkum”, tem agora cerca de 40.300 Km². Durante o regime soviético grandes áreas desta região foram utilizadas como centros militares e espaciais e, desta forma, agravou-se o problema, pois o sal está poluído por produtos químicos. O vento soprando do lago carrega o sal poluído pelos produtos químicos do leito exposto e leva-o para campos de cultura à média de 75 milhões de toneladas anuais, cobrindo faixas de 40 km de largura e destruindo solos a milhares de quilômetros de distância [Sinnot, 1992] . Esses sais podem destruir as colheitas de algodão logo no começo do período de brotação. Para retirar o sal do solo é necessário regar continuamente a terra durante um longo período. Este processo requer ainda mais água fresca, o que significa mais desvios das águas fluviais e, desta maneira, isto forma uma espécie de círculo vicioso. Por conseguinte, deserto e áreas arenosas aumentam pelo impacto do vento e mais desertificação é criada. A Academia das Ciências Uzbeque afirma que um novo deserto a sul e a leste do Mar de Aral já se expandiu para 5 milhões de hectares. Isto é muitas vezes referido ironicamente como 'deserto branco' por que os coletores de sal tóxico estão incrustados na sua superfície depois de se misturarem com Karakum (deserto negro) e Kyzylkum (deserto vermelho) que rodeiam o Mar de Aral. O enorme deserto de areia branca brilhante, que é soprada para terrenos agrícolas, contamina a terra e obriga os agricultores a compensarem a produção enfraquecida pondo mais pesticidas e fertilizantes na terra, envenenando-a ainda mais.
O escoamento do sal além de diminuir áreas utilizáveis para a agricultura destrói pastagens e, portanto, provoca carência de forragens para os animais. A produtividade das pastagens diminuiu para metade e a destruição da vegetação dos prados diminuiu 10 vezes sua produtividade.

b) Destruição dos peixes no Mar de Aral: Antes de 1960 a pesca era um negócio em expansão. Uma indústria de pesca que fora próspera no passado, foi afetada negativamente pelas quantidades crescentes de poluentes que chegavam ao Mar de Aral vindos dos rios, somando-se ao fato de que nos últimos 30 anos mais de 60% do lago havia desaparecido. Em conseqüência disso, começaram a aumentar as concentrações de sais e minerais na contraída massa de água. A salinidade da água do Mar de Aral aumentou a ponto de muitas das suas áreas terem a mesma salinidade do oceano. Esta alteração química provocou mudanças espantosas na ecologia do lago, provocando enormes baixas na produção de pescado do Mar de Aral. O conteúdo mineral na água aumentou quatro vezes atingindo 40g/litro, impedindo a sobrevivência da maioria dos peixes e da fauna selvagem do lago. O peixe quase desapareceu do que resta do lago, deixando milhares de pessoas sem meios de subsistência. Quando o Aral começou rapidamente a encolher, os barcos de pesca e as suas tripulações ficaram encalhados, algumas vezes a dezenas de quilômetros das antigas margens. [6] Toda a pesca comercial foi suspensa em 1982, sendo as capturas atuais insignificantes, e comunidades inteiras de pescadores estão desempregadas. A perda de produtividade provocou um colapso na indústria pesqueira e desemprego neste sector. Em 1960, foram capturadas 43.430 toneladas de peixe no lago, caindo para 17 mil toneladas em 1970, zero toneladas em 1980, e mantendo-se a situação até hoje [Letolle e Mainguet] .

Dois portos importantes, Aralsk e Moynaq, floresceram como centros de pesca. O porto de Aralsk, situado a norte do Pequeno Aral no Kasaquistão era uma cidade bem organizada, com um estaleiro naval e uma indústria de pesca. No estaleiro construíam-se barcos de 50 a 500 toneladas para transporte de carga e pesca no Mar de Aral. A estação ferroviária de Aralsk , situada na linha de Moscou a Tashkent e Almaty, era a ligação ferroviária mais importante da Ásia central. As cargas vindas pela ferrovia costumavam ser transferidas para os barcos e transportadas para sul, para o porto de Moynaq, em Karakalpsquistão, no Uzbequistão. [7] Em 1975, a pesca terminou no Pequeno Aral e Aralsk passou a ser um porto sem porto. A salinidade dos charcos aumentou, a caça diminuiu e o clima começou a sofrer alterações, tendo em vista o desaparecimento das grandes florestas de juncos e caniços quando a água secou. Para que fosse mantido o emprego na indústria de pesca, introduziram peixe congelado oriundo de outras partes da União Soviética, como o Mar Báltico, Mar Branco e Oceano Pacífico. Este processo cessou com a desintegração da Federação.

Moynaq, situada na margem sul do Aral, além de ser um centro de indústria de pesca foi antigamente uma popular estância balneária. É difícil imaginar que esta cidade foi um próspero local de veraneio. Multidões de turistas soviéticos juntavam-se em Moynaq para tomar sol nas antigas praias e nadar nas águas do Aral, famosas por curar doenças de pele. Crianças de cidades longínquas chegavam aos campos de verão para respirar o ar do mar e comer peixe fresco. Hoje em dia, Moynaq apresenta uma cintilante planura salgada, um cemitério de cascos enferrujados de barcos de pesca encalhados. O mar está a quilômetros de distância do passeio à beira-mar e não se vê a olho nu.

Esta situação não foi como uma conseqüência de um raio caído do céu. Desde 1970 que este assunto era amplamente discutido em círculos governamentais. Em 1977, a conferência soviética sobre o impacto ambiental de uma diminuição no nível do Mar de Aral, uma comunicação preparada por dois cientistas da República de Uzbeque, anunciava uma redução acentuada na produção de pescado [Gorodetskaya e Kes, 1978]. Outros, também por essa altura, sugeriam que a morte da pesca comercial ocorreria, provavelmente, devido à secagem dos leitos de desova dos peixes [Barovsky, 1980]. Foi também sugerido no mesmo fórum, que o esgotamento dos bancos de pesca no Mar de Aral seria uma das primeiras conseqüências do declínio dos níveis do mar. Havia um relatório publicado num jornal da autoria de A. U. Reteyum em que este assinalava que: ... “em 1965, o Conselho de Ministros da URSS tinha aprovado uma resolução especial 'Sobre as Medidas para Preservar a Pesca – Importância do Mar de Aral!” Isto é um exemplo que apóia a tese de que os sinais de deterioração na bacia do Aral eram evidentes já em meados dos anos 60 [Reteyum,1991]. Nos finais dos anos 70, era já claro que os bancos de pesca do Mar de Aral estavam num declínio irreversível e que, provavelmente, se tivessem sido adotadas medidas adequadas esta situação atual podia ter sido evitada.

c) Mudanças Climáticas: Durante os últimos 5-10 anos a secagem do Mar de Aral trouxe alterações evidentes nas condições climáticas. O efeito do aquecimento da água do mar no Inverno e o seu arrefecimento no Verão diminuiu dramaticamente. O Mar de Aral é um lago de deserto, com um clima continental forte, e uma variação de temperatura de 40 graus centígrados no Verão para 30 graus negativos no Inverno. No passado, o Mar de Aral era considerado como um regulador, mitigando os ventos frios que vinham da Sibéria no Inverno e evitando que as temperaturas de Verão subissem demasiado. Notava-se uma evaporação elevada (da ordem de 1.700 mm por ano). A evaporação era também a razão do bom clima ao redor de Aral antes da secagem do lago, e, apesar do alto nível de evaporação, era mantido o equilíbrio da água devido aos grandes caudais fornecidos pelos dois rios. As alterações climáticas deram origem a verões mais curtos e mais secos e invernos mais longos e mais frios na região. As temperaturas do ar no Inverno desciam e as temperaturas de Verão subiam 2 a 3 graus centígrados, incluindo observações de 49 ºC. Esta mudança para um clima mais continental, com verões mais curtos e mais quentes e invernos mais frios e mais longos, ocasionava pouca precipitação para a colheita seguinte. A precipitação foi reduzida várias vezes nas margens do Mar de Aral. A magnitude média da precipitação é de 150-200 mm com uma considerável variação de acordo com as estações. A estação mais prolongada baixou também para 170 dias, perdendo os 200 dias livres de geadas necessárias para as colheitas do algodão. Como já foi explicado anteriormente, a ocorrência freqüente de longas tempestades de poeiras e de ventos rasteiros são traços característicos desta região. As mais intensas ocorrem na costa oeste - com, talvez, 50 tempestades por ano. A velocidade máxima do vento atinge 20-25 m/s.

d) Condições Sanitárias: É opinião geral de que a crise sanitária na região está diretamente ligada ao desaparecimento do Mar de Aral. Para tornar as coisas ainda pior, as pessoas têm pouco acesso à água potável. Os produtos químicos escoados dos campos agrícolas poluíram ainda mais o Mar de Aral, tornando a sua água imprópria para consumo. O algodão é um patrão exigente. Não só tem mais sede do que a maioria das outras colheitas comerciais, como também necessita de fortes aplicações de pesticidas para afastar gorgulhos e outras pestes. Parece freqüentemente que nas mentes soviéticas a teoria era “se pouco faz bem, muito faz melhor”, — muita água, muitos pesticidas. Somando-se a isto a sementeira de algodão é normalmente pulverizada com um desfolhante no Outono, a fim de lhe retirar as folhas para tornar mais fácil a colheita. Uma vez que a bacia é um sistema fechado sem drenagem para o exterior, os inseticidas e herbicidas pulverizados nos campos escoam para a terra, acumulando no subsolo água a níveis perigosos. Como a maior parte da água da torneira vem de poços, as pessoas bebem um cocktail de produtos químicos diluídos, alguns identificados como cancerígenos. Níveis elevados de contaminação por pesticidas diminuem a capacidade do organismo humano de absorver ferro, provocando anemia. A água utilizada para consumo humano contém acima de 6 gramas de sal por litro, um nível quatro vezes superior à norma da Organização Mundial de Saúde. Isto tem sido relacionado com a prevalência de doenças renais. As tempestades de poeiras sopram violentamente durante mais de 60 dias por ano, espalhando resíduos tóxicos e sal deixado pela água do lago. Pensa-se que estas partículas sejam uma causa possível de doenças respiratórias e cancros. (Quando o lago eventualmente secar, calcula-se que 15 mil milhões de toneladas de sal serão lançadas na atmosfera). De acordo com Timothy Cummings, um delegado da Cruz Vermelha Americana que trabalha na região do Mar de Aral, a combinação de toxinas provenientes do ar e da água para consumo humano, aumentou a fraca saúde dos residentes. [8]

O Relatório sobre o Ambiente da URSS, uma publicação oficial do governo, salientou que a acumulação total de pesticidas no Turkmenistão era de 20 a 25 vezes da média nacional. “Em áreas de elevada utilização de pesticidas as doenças infantis (proporção de doenças) até à idade de 6 anos é 4,6 vezes superior à das regiões de baixa proporção de pesticidas” [Jones, 1999] . De acordo com a Academia de Ciências Soviética, a taxa de mortalidade infantil na região da Ásia central aumentou entre 1970 e 1985. Em Bozataus, uma região do Karakalpaquistão, uma área simultaneamente flagelada com falta de saneamento básico, cuidados de saúde infantil e maternais inadequados, e níveis crescentes de pesticidas e herbicidas na água, 110 em cada 1.000 crianças morrem antes de completarem um ano. Em comparação com 109 na África, 95 na Índia e 37 na China. Por exemplo, em Karakalpaquistão, a taxa do cancro do esôfago é sete vezes superior à do resto do país. E. Paronina, uma investigadora soviética, estudou as condições sanitárias em Karakalpaquistão e relatou as suas sombrias conclusões. Em resumo, eis o que ela afirma: “Tudo isto (crise sanitária) é resultado do alto preço pago pela população para se ter auto-suficiência em algodão” [Jones, 1991]. Não surpreende que toda a literatura médica local esteja repleta de histórias de deformidades à nascença, incremento de doenças renais e hepáticas, gastrite crônica, crescente mortalidade infantil e taxas de aumento de cancro.

As pessoas tiveram também que se adaptar a alterações drásticas no clima. Como já foi observado, nas últimas quatro décadas os verões tornaram-se mais quentes e mais curtos e os invernos mais frios. “As alterações climáticas não afetam, necessariamente, a propagação da doença, mas tornam a vida muito mais difícil,” diz Darin Portnoy, um especialista ocidental de tuberculose, que trabalha para um projeto do Banco Mundial em Moynaq. “As pessoas concentram-se em locais fechados durante longos períodos. Vivem encerrados e proporcionam a propagação da doença.” [9]

Quando parecia que as coisas não poderiam ficar mais deprimentes surgiu outra preocupante revelação Foi noticiado de que tinham sido enterrados barris de bactéria de antraz na Ilha de Vozrozhdeniye, situada no Mar de Aral, quando o Uzbequistão fazia parte da União Soviética. Durante o tempo que Mikhail Gorbachev esteve à frente do governo, os serviços de informação de Washington disseram que a União Soviética, contrariamente às suas promessas de respeitar os tratados, estavam produzindo armas químicas. Em 1988, os Estados Unidos exigiram que as instalações químicas soviéticas fossem inspecionadas. O governo determinou aos cientistas da cidade siberiana de Sverdiovsk, que transferissem centenas de toneladas de antraz para caixas gigantes de aço inoxidável e o regassem com lixívia para matar a bactéria. A mortífera carga foi depois transportada para a ilha no Mar de Aral que tinha sido um local de experiências de armas biológicas. Contudo, a lixívia não matou completamente a bactéria. Amostras de testes feitos ao solo revelam que alguns esporos continuam vivos. O receio é que a bactéria de antraz enterrada possa ser transportada para os territórios uzbeque e kazaque por lagartos e pássaros. O antraz caracteriza-se por lesões nos pulmões e úlceras no corpo e é transmitido aos humanos per animais através do contacto. Tanto o Uzbequistão como o Kasaquistão pediram ajuda aos Estados Unidos para que se fizesse a determinação do perigo que os seus territórios corriam, uma vez que a Rússia não cumpriu a promessa de Boris Yeltsin em 1992, de fechar e descontaminar o local [Jones, 1999].

Estratégia Regional para a Água

Já em 1982, o governo procurou desenvolver um plano pormenorizado dos recursos hídricos das bacias dos rios Sirdaria e Amudaria e colocou limitações à retirada de água. Pouco tempo depois, foram criadas duas organizações para operar e manter as principais infra-estruturas hidráulicas e controlar a utilização da água. Houve muitas propostas para se transferir água do Mar Cáspio para o Aral. [10] Um plano de longa duração consistia em desviar as águas dos rios siberianos Ob, Irtysh e Yenisey e canalizá-los para Sul, para a região do Mar de Aral e para o deserto. Após anos de controvérsia este plano foi abandonado devido aos custos e conseqüências ambientais, mas alguns cientistas locais ainda defendem a idéia. Outra sugestão era desfazer os glaciais das montanhas Pamir e Tien Shan com explosões nucleares. Estas idéias não eram realistas, especialmente em tempos de crise econômica. Todavia, elas ainda perduram.

Com o fim do período soviético, as cinco Repúblicas da Ásia Central (RAC) independentes, estabeleceram uma comissão conjunta para a coordenação da água e para regular a sua distribuição na bacia, consolidando posições próprias para a adoção de estratégias regionais para a água. Em 1992, foi pedido ao Banco Mundial que coordenasse a ajuda internacional em resposta à crise na bacia do Mar de Aral. Em Setembro do mesmo ano, uma comissão do banco visitou a região e preparou um relatório sobre aquilo que viu. Teve lugar em Washington, em Abril de 1993, uma conferência internacional patrocinada pelo Banco Mundial, Programa Ambiental da Nações Unidas (UNEP) e Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP) para discutir a proposta do banco. Estiveram presentes representantes das cinco repúblicas, assim como de outras organizações internacionais e agências de assistência. Com base nas recomendações do Banco Mundial, um grupo que incluía o Banco, o UNEP e o UNDP visitou a região em Maio de 1993 e preparou um programa de assistência financeira em colaboração com as RAC. Este programa continha 19 projetos para a primeira etapa de um programa de três fases para salvar o Mar de Aral [Kirmani e Moigne, 1997]. As RAC, por sua vez, criaram três organizações regionais - o Conselho Interestadual, o Fundo Internacional para o Mar de Aral e a Comissão Executiva - para implementarem o programa. [11] Foi encarada, e em parte implementada, uma maior utilização das águas de drenagem e residuais, assim como a introdução de colheitas mais tolerantes ao sal. Cerca de 6 km³/ano de águas de drenagens agrícolas e de águas residuais são diretamente reutilizadas para irrigação, enquanto 37 km³/ano regressam às depressões naturais ou rios, onde são misturadas com água fresca e podem ser reutilizadas para irrigação ou outros fins. O melhor que se espera é conseguir-se alguma estabilidade do lago e a sobrevivência dos dois deltas fluviais. A salvação dos deltas podia levar a uma nova atividade pesqueira comercial.

Líderes governamentais afirmaram que a quantidade de terra para algodão será reduzida e que grandes quantidades de água serão bombeadas para o Mar de Aral até 2005 [Bech, 1995]. Funcionários da agricultura, contudo, dizem que é impossível demolir o sistema de canais. Muitos agricultores dependem dos rendimentos da cultura do algodão. O governo indicou também que as necessidades dos agricultores de algodão estão em primeiro lugar. A exportação de algodão é uma fonte importante de rendimento. As RAC não querem extirpar a monocultura do algodão e arriscar perder as suas recompensas econômicas. E assim, a maioria dos cientistas acredita que o Mar de Aral nunca irá ser como foi.

O futuro do Mar de Aral é, portanto, incerto. A única coisa certa é que o lago é agora uma catástrofe ambiental à medida que o nível de água declina e o ecossistema se degrada, provocando um ambiente de deterioração e condições de vida e de saúde precárias para os povos que vivem nas margens do lago. É agora impossível prever, com algum rigor, o futuro para o Aral, mas se não se encontrarem soluções apropriadas o nível da água continuará a declinar. Seja qual for o futuro, esta situação de certeza que abriu os olhos aos governos do mundo. É um forte aviso à comunidade internacional e ilustra a rapidez – em menos de 20 anos – como uma tragédia humanitária e ambiental pode ameaçar toda uma região e a sua população. A destruição do Mar de Aral é um exemplo clássico de desenvolvimento não-sustentado.

NOTAS

1) Sinais de alteração apareciam por toda a parte durante os primeiros 20 anos do problema do Mar de Aral (1960-1980): Muitas das alterações ambientais adversas foram mencionadas em documentos científicos soviéticos em certas alturas dos anos 60 e 70.

2) Uma pequena porção das nascentes da bacia do Mar de Aral ficam localizadas na China e no Irão. O Afeganistão compartilha diretamente o Rio Amudaria, que constitui uma fronteira entre ele e o Uzbequistão, Tadjiquistão e Turkmenistão.

3) 'O Mar de Aral – Uzbequistão e Kasaquistão', Principais Lagos do Mês – Lagos Vivos, Julho – Agosto, 1998.

4) Um total de mais de 10 milhões de pessoas foram deslocadas para a Ásia central, muitas delas à força, por razões políticas, e a maioria foi para o Kasaquistão que até agora conta com cerca de 8 milhões de pessoas oriundas de outras partes.

5) A água salgada do terreno pode ser explicada por uma secagem total aparente do lago, que se estendeu para o interior centenas de anos atrás.

6) 'Água Contaminada Prejudica a Saúde na Região do Mar de Aral', Notícias e Realces, FAO das Nações Unidas, 27 de Janeiro de 1997.
- http://www.fao.org/NEWS/1997/970104-e.htm.

7) Esta região fazia parte da área do Kasaquistão antes da formação da URSS e é habitada principalmente por kazaques.

8) O Desastre Ecológico do Mar de Aral Provoca Crise Humanitária, Nas Notícias, escrito por Stephanie Kriner, Cruz Vermelha.
- http://www.redcross.org/news/in/asia/020410aral.html.

9) Medicina Itinerante, Participação nas Notícias, 3º trimestre 1998. Reproduzido de 'Médicos Sem Fronteiras', RU, edição nº13, Primavera de 1998.

10) Calcula-se que, pelo menos, 73 km cúbicos de água teriam de ser descarregados no Mar de Aral em cada ano, por um período de pelo menos 20 anos, a fim de se restabelecer o nível de 1960 de 53 m. acima do nível do mar. Os governos dos países marginais do lago consideram isto um 'objetivo irrealista'.

11) 'É a altura de salvar o Mar de Aral? Desenvolvimento em irrigação nos países da ex-União Soviética'. FAO AQUASTAT, Setembro,1998

segunda-feira, março 03, 2008

Energia e lixo: problemas e soluções

Por Chris Bueno
Lixo e energia podem ter mais em comum do que se imagina. Além de serem dois dos maiores problemas atuais – o crescimento da atividade industrial e do consumo gera, por um lado, aumento na produção de lixo, e por outro, o risco de falta de energia para atender a crescente demanda –, algumas das fontes de energia usadas atualmente são grandes produtoras de lixo, gerando resíduos, na maioria das vezes, prejudiciais à saúde. No entanto, o que é um grande problema pode ser, ao mesmo tempo, uma solução: o lixo pode se tornar ele mesmo uma fonte de energia.
A energia produzida no Brasil é majoritariamente limpa, pois é centrada nas hidrelétricas, que são responsáveis por 70,77% da matriz energética do país, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). No entanto, quando o nível dos reservatórios fica baixo, como na longa estiagem que houve em 2007, as termoelétricas movidas a gás ou a óleo são acionadas e elas produzem resíduos no processo de geração de energia. Na queima desses combustíveis, há emissão de gases poluentes, como o óxido nítrico (NO2) e o gás sulfuroso (SO2), que podem não apenas causar riscos à saúde, como problemas respiratórios, mas também contribuir para o aumento do efeito estufa. Também pode ocorrer contaminação de rios, lagos e mananciais, com o descarte incorreto dos resíduos gerados pelas termoelétricas.
Um caso que está criando polêmica atualmente é o da cana-de-açúcar utilizada para gerar biocombustível. O que em teoria deveria ser uma energia limpa está sendo colocado em xeque por vários pesquisadores, que apontam os problemas que a queima da palha da cana-de-açúcar, realizada durante a colheita, traz para o meio ambiente e para a saúde humana. Duas pesquisas feitas recentemente no Instituto de Química da Unesp relacionaram essa queima a problemas respiratórios e quantificaram as emissões de compostos de nitrogênio na atmosfera. “Este processo acaba interferindo diretamente na saúde da população, pois a combustão da palha da cana-de-açúcar libera poluentes e o principal dano é o prejuízo à qualidade do ar e, conseqüentemente, da saúde, pela excessiva emissão de monóxido de carbono e ozônio, trazendo também danos ao solo, às plantas naturais e cultivadas, à fauna e à população”, escrevem Maria Nazareth Vianna Roseiro, mestre em saúde pública, e Ângela Maria Magosso Takayanagui, professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública, ambas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP, no artigo “Meio ambiente e poluição atmosférica: o caso da cana-de-açúcar”. Em algumas regiões do estado de São Paulo, a queima da palha durante a colheita chegou a ser proibida em 2006, no período em que a umidade relativa do ar atingiu níveis muito baixos.
O lixo nuclear talvez seja o caso mais emblemático: apesar de ser uma energia limpa, seus resíduos são um dos pontos que mais pesam em relação à rejeição ao seu uso. Esses resíduos são altamente tóxicos, com risco de desenvolvimento de câncer mesmo em pessoas expostas a baixas doses de radiação. São também muito poluentes, podendo contaminar o ar, a água e o solo. Tanto que o Greenpeace lançou em 2005 um relatório de 128 páginas sobre os riscos desse tipo de energia. Embora haja planos para a expansão da energia nuclear no Brasil, ainda não foi decidido qual será a destinação de seus resíduos. Atualmente, os resíduos de baixa e média densidade são depositados em tambores especiais, onde ficam armazenados até perderem sua radioatividade. Já os resíduos de alta densidade são depositados provisoriamente em piscinas de concreto especialmente preparadas, porém ainda não se definiu qual será o destino definitivo para eles. Dar uma destinação segura a esses resíduos diminuiria a rejeição a esse tipo de energia.
O caminho inverso
O lixo nuclear é exemplo de resíduo que também pode ser reaproveitado na própria geração de energia. O rejeito de alta radioatividade, que a indústria chama de subproduto, é formado pelo elemento combustível já irradiado dentro do reator. Normalmente, esse elemento é retirado do reator com apenas 15% da sua capacidade utilizada, podendo, então, ser reutilizado. O que já ocorre hoje em dia, no caso da usina receber elementos combustíveis com algum tipo de problema, é ela recorrer a esses resíduos em combinação com o novo. No entanto, o desenvolvimento de pesquisas pode levar à reutilização de uma maior parte desses resíduos, tornando a energia nuclear menos poluente e mais econômica.
O óleo de cozinha também pode passar de poluente a fonte energética. O resíduo, geralmente despejado em pias, ralos e até vasos sanitários, é um grave problema para rios, lagos e mananciais, pois não se dissolve nem se mistura com a água, formando uma camada densa na superfície, que impede as trocas gasosas e a oxigenação. Porém, se coletado, o óleo e outras gorduras de origem animal ou vegetal utilizado no preparo de alimentos, pode ser transformado em biodiesel – uma energia limpa e barata. A técnica já provou dar certo: uma parceria entre a Unicamp e a prefeitura de Indaiatuba (SP) possibilitou a instalação de uma usina capaz de transformar o óleo de cozinha em biodiesel, que já responde pelo abastecimento de toda a frota do Serviço Autônomo de Água e Esgotos da cidade.
Transformar resíduos em energia não é novidade no mundo desenvolvido. Nos países europeus, nos Estados Unidos e no Japão, essa técnica já está em prática desde os anos 1980. Mas o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil produz cerca de 150 mil toneladas de lixo por dia. A maior parte desses resíduos (aproximadamente 60%) tem seu destino em lixões, aterros sanitários irregulares, leitos de rio ou ainda queima a céu aberto. Os lixões e aterros existentes já estão, em sua maioria, saturados. Apesar disso, quase nada dos resíduos brasileiros é transformado em energia, ao contrário dos países ricos, que processam 130 milhões de toneladas de lixo, gerando energia elétrica e térmica em 650 instalações. Somente a União Européia extrai 8.800 megawatts de 50,2 milhões de toneladas por ano em 301 usinas, segundo dados da última edição da Waste to Energy International Exhibition & Conference from Waste and Biomass (http://www.wte-expo.com/), conferência internacional sobre últimas novidades e tecnologias ligadas à geração de energia a partir do lixo, realizada em maio de 2007 na Alemanha.
“É muito significativa a contribuição que essa nova forma de se gerar energia pode trazer. De fato, cada 200 toneladas por dia da fração orgânica dos resíduos sólidos domiciliares permitem a implantação de uma usina termelétrica com a potência de 3 megawatts, capaz de atender uma população de 30 mil habitantes. Isso quer dizer que, se a fração orgânica (60%) de todo o lixo domiciliar brasileiro fosse utilizada para produzir energia elétrica, poderíamos implantar usinas termelétricas com potência significativa, cujo valor seria apreciável”, escreve o economista Sabetai Calderoni, doutor em ciências pela USP, em seu livro Os bilhões perdidos no lixo. Contudo, o potencial brasileiro para transformar lixo em energia permanece subutilizado, mesmo com o aumento de 5,4% no consumo de energia no país no ano passado, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O dado é preocupante para um país que recentemente passou por um racionamento de energia e ainda vive sob o fantasma do apagão.
“A maior parte dos problemas causados pelo lixo pode ser resolvida com sua conversão em energia”, explica Luciano Basto Oliveira, doutor em planejamento energético pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da UFRJ, e assessor da Superintendência de Gás e Biocombustíveis da EPE. “É uma questão tecnológica, com suas repercussões ambientais, sociais e financeiras. Isto já é feito em diversos lugares, sobretudo no hemisfério norte, onde se encontram os países mais ricos. Só no caso do lixo urbano, existem mais de 1.700 usinas de geração elétrica em funcionamento, aplicando cerca de 100 tecnologias”, aponta.
Usar o lixo para gerar energia é uma solução não apenas econômica, mas também social e ambiental. Basta pensar que o destino mais comum do lixo brasileiro, os lixões e aterros, também são um problema para a saúde e para o meio ambiente, pois contaminam o solo com um líquido altamente tóxico, chamado chorume, que polui também as águas de lençóis freáticos, e produzem metano (CH4), um gás ainda mais prejudicial à atmosfera que o próprio dióxido de carbono (CO2), considerado o grande vilão do efeito estufa. Essa situação pode ser revertida com uma ação relativamente simples: o aproveitamento do gás produzido nos depósitos de lixo como fonte de energia.
“ Os processos de geração de energia a partir de lixo sólido são basicamente dois: a fermentação anaeróbica de lixo por microorganismos, com geração de metano como produto metabólico, e a incineração controlada do lixo”, explica José Aurélio Medeiros da Luz, um dos líderes do grupo de pesquisa sobre tratamento de minérios e resíduos da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Segundo o pesquisador, a fermentação – decomposição da matéria orgânica – é geralmente feita em biodigestores, ou em aterros sanitários munidos de sistema de dutos de coleta do biogás, um conjunto de gases gerados por essa decomposição. O biogás possui entre 50% e 70% de metano, que tem poder calorífico, isto é, pode ser queimado para gerar energia. No caso da incineração, a energia é gerada através da queima completa dos resíduos. Esse processo produz monóxido de carbono, que também apresenta poder calorífico. Em ambos os casos, é possível não apenas gerar energia a partir do lixo, mas também utilizar a redução das emissões de gases de efeito estufa para negociar certificados de créditos de carbono com valor no mercado financeiro, de acordo com o Protocolo de Kyoto.
Potencial brasileiro
O Brasil possui grande potencial para gerar energia elétrica a partir de resíduos sólidos e a alternativa poderia aumentar a atual oferta do país em 50 milhões de megawatt-hora por ano, o que representa mais de 15% do total atualmente disponível ou cerca de um quarto do que gera a usina hidrelétrica de Itaipu. “ O caminho é mais curto que parece, pois a comprovação do baixo custo da eletricidade tornará esta fonte interessantíssima, sobretudo quando assimilada sua característica de segurança energética”, declara Oliveira, da UFRJ.
As vantagens são muitas. Diminuição dos aterros sanitários e lixões, menor produção de gases poluentes, menos riscos ao meio ambiente e à saúde humana, mais economia e mais empregos são apenas algumas delas. Aliás, a economia é um dos grandes chamarizes de se transformar lixo em energia: em seu artigo “Lixo que vale ouro”, Oliveira aponta que o Brasil pode vir a ter, com a implantação desse sistema, uma receita da ordem de R$ 9 bilhões por ano. O montante viria da conservação de energia, da venda de recicláveis e da comercialização de créditos nas emissões de gases evitadas, como o carbono e metano. “Na verdade, a questão energética ligada ao lixo deve ter duas vertentes: a que primeiramente nos ocorre é a geração de energia a partir de lixo, e a segunda, que não deve ser esquecida, é a reciclagem de produtos constituintes do lixo, de cuja produção primária a energia entra como insumo. Reciclá-los usualmente diminui a demanda energética dentro do setor industrial pertinente”, afirma Luz, da Ufop.
Porém ainda há muitos desafios a vencer. O maior deles, como aponta Oliveira, é a desinformação, já que poucos acreditam ser possível que o lixo pode se tornar fonte de energia, o que resulta no subaproveitamento do potencial brasileiro. “Além de algumas iniciativas quanto ao aproveitamento de biogás de aterros, não existem projetos com outras tecnologias em curso no país para explorar todo este potencial”, explica o pesquisador. Mas isso não é motivo para desânimo. “Isso comprova a necessidade de planejamento, o que acaba de ser incorporado pela EPE, que está criando uma base de dados sobre os parâmetros das tecnologias disponíveis no mundo, a composição típica dos resíduos de cada região, a capacidade de aproveitamento dos co-produtos de cada processo, os preços dos energéticos e dos produtos que possam ser substituídos e a quantidade de emissões de gases de efeito estufa reduzida por tecnologia, com o intuito de facilitar a escolha sobre a tecnologia a ser aplicada”, conclui.

quarta-feira, junho 20, 2007

terça-feira, junho 19, 2007

Dimensões da tragédia urbana



Ermínia Maricato

A evolução dos indicadores sociais, que acompanham o processo de urbanização no Brasil, apresenta um quadro contraditório. Desde os anos 40 podemos festejar a queda ininterrupta da mortalidade infantil (de 149 mortes para cada mil nascidos vivos em 1940 para 34,6 em 1999), o aumento, também ininterrupto da expectativa de vida (de 42,7 anos em 1940 para 68,4 em 1999) e a queda do número de filhos por mulher em idade fértil (4,4 filhos em 1940 para 2,2 em 2000). O nível de escolaridade, como todos sabemos, também evolui positivamente ao longo do período. Esses dados, fornecidos pelo IBGE, propiciam uma leitura bastante positiva da evolução da sociedade brasileira no século passado. Tanto o aumento da expectativa de vida quanto a diminuição da mortalidade infantil, bem como a diminuição da taxa de natalidade, constituem variações significativas e, sem dúvida, benéficas no que diz respeito à qualidade de vida.
O processo de urbanização/industrialização se consolida e se aprofunda a partir de 1930, quando os interesses urbanos industriais conquistam a hegemonia na orientação da política econômica sem, entretanto, romper com relações arcaicas de mando baseado na propriedade fundiária. É importante destacar essa característica do processo social brasileiro: industrialização sem reforma agrária, diferentemente do que ocorrera na Europa e nos Estados Unidos. Nestes, a industrialização foi acompanhada de rupturas na antiga ordem social. Entre nós, predominou um certo arranjo, uma acomodação por cima como ocorrera em outros momentos importantes na história do país: independência (1822), Constituição de 1824, Lei de Terras de 1850, "libertação" dos escravos em 1988, República 1889, característica para a qual chamam a atenção diversos estudiosos como Francisco de Oliveira, Alfredo Bosi, José de Souza Martins, Roberto Schwarz, entre muitos outros.
Entre 1940 e 1980 o Brasil cresceu, economicamente, a taxas muito altas (crescimento do PIB equivalente a 7% ao ano) e, embora a riqueza gerada por esse crescimento tenha sido muito mal distribuída, ainda assim proporcionou melhora de vida a grande parte da população, além de resultar em uma respeitável base produtiva.
Nesse período, as grandes metrópoles, especialmente São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, eram vistas como a alternativa de melhora das péssimas condições da vida rural. Um gigantesco movimento migratório foi o principal responsável por ampliar a população urbana em 125 milhões de pessoas em apenas 60 anos. Em 1940, cerca de 18,8% da população brasileira era urbana. Em 2000 essa proporção é de 82%, aproximadamente, o que permite classificar o Brasil com um dos países mais urbanizados do planeta sendo que perto de 30% dessa população vive em apenas 9 metrópoles.
Apesar da sua característica de concentração das riquezas, o processo de industrialização/urbanização foi determinante para a melhora dos indicadores sociais mencionados acima devido à expansão da rede de água tratada, ampliação do uso de antibióticos, aumento da escolaridade materna, aumento do atendimento à gestante, maior acesso à informação, expansão do emprego industrial e acesso, mesmo que restrito, aos direitos sociais no trabalho urbano (dentre outras causas).
Brasil, país urbanizado. Urbanizado, de fato?
Se observarmos os indicadores urbanísticos nesse mesmo período, entretanto, veremos que o ovo da serpente estava sendo gerido. O otimismo que pode emergir dos dados não tem como se sustentar quando observamos que a evolução do uso e da ocupação do solo assume uma forma discriminatória (segregação da pobreza e cidadania restrita a alguns), e ambientalmente predatória. A questão fundiária, cujo enfrentamento foi adiado sine die, no campo, ressurge sob novo formato no universo urbano.
Em 1940 as cidades pareciam ser a promessa da superação do Brasil arcaico rumo à modernização e emancipação política e econômica. A qualidade de vida em São Paulo, por exemplo, foi observada por vários visitantes, dentre os quais o antropólogo Claude Lévi Strauss em seu livro Saudades de São Paulo. O Eldorado era mais do que uma promessa para aqueles que vinham em busca de uma vida melhor. Era realidade, como bem reflete Valter Rogério em seu filme Marvada Carne. A vida na periferia urbana dos anos 60 ou 70 não era tão boa quanto na cidade oficial mas era possível reunir os amigos e vizinhos para um churrasco e uma cerveja (na vida da roça a carne era um alimento raro). As casas, produto do esforço autônomo dos moradores e de seus amigos nos fins de semana, nos loteamentos ilegais da periferia, embora apresentando deficiências eram honestas e dignas. Melhoravam com os pequenos investimentos provenientes das férias e do 13o. salário, ao longo de muitos anos.O desenrolar dos acontecimentos se encarregou de contrariar a utopia da emancipação social e da modernização para todos. No final do século a imagem das grandes cidades está marcada por favelas, poluição do ar e das águas, enchentes, desmoronamentos, crianças abandonadas, violência, epidemias.
A pobreza urbana é maior do que a média da pobreza brasileira e está concentrada nas Regiões Metropolitanas. Dos pobres brasileiros, 33% estão nas "ricas" metrópoles do sudeste. Concentram-se também nas regiões metropolitanas 80% da população moradora das favelas, conforme estudos de Suzana Pasternak. Em 9 metrópoles brasileiras moram cerca de 55 milhões de pessoas. É mais do que a população de vários países latino-americanos ou europeus, juntos. O Rio de Janeiro tem população equivalente a um Chile e São Paulo tem população superior a um Chile e meio. No entanto, o país não tem política institucional para as regiões metropolitanas, como se os índices de violência, poluição e miséria que elas apresentam pudessem ser resolvidos com políticas compensatórias pontuais. A ausência de políticas para as metrópoles é uma ofensa à inteligência brasileira. Se os municípios que as compõem se entenderem para compatibilizar as iniciativas relativas à coleta e destino do lixo urbano e da macro drenagem, por exemplo, melhor para todos, senão, azar.
Aproximadamente 50% da população das metrópoles de Rio de Janeiro e São Paulo mora nas favelas ou nos loteamentos ilegais da periferia. Mas os problemas urbanos estão longe de se restringir às áreas metropolitanas. O censo do IBGE de 1991 verificou uma tendência confirmada em 2000, de que as cidades médias (entre 100.000 e 500.000 habitantes) crescem a taxas mais altas do que as regiões metropolitanas (4,8% contra 1,3%). Os problemas das metrópoles começam a surgir nas cidades de porte médio que ainda apresentam melhor qualidade de vida: Florianópolis, Aracajú, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, dentre tantas outras. Favelas, crianças abandonadas, moradores de rua, congestionamentos de veículos, mortes no trânsito, poluição da água e, em especial a chamada violência urbana são alguns dos indicadores que constituem amostra da tendência que é geral.
Há um desaceleramento no crescimento das metrópoles mas ele se verifica especialmente no município central. Há casos, como o Rio de Janeiro, onde o município central chegou a perder população nos últimos anos. Mas essa não é a realidade dos municípios periféricos das regiões metropolitanas. As periferias crescem mais do que os núcleos e em algumas metrópoles esse crescimento é explosivo como acontece em Belém (157,9%), Curitiba (28,2%), Belo Horizonte (20,9%) , Salvador (18, 1%) e São Paulo (16,3%), de acordo com pesquisa do IPEA para o período 1991/1996. Ou seja, as tendências futuras não são alvissareiras.
O crescimento urbano resultante desse intenso crescimento demográfico se fez, em grande parte, fora da lei (sem levar em conta a legislação urbanística de uso e ocupação do solo e código de obras), sem financiamento público (ou ignorado pelas políticas públicas) e sem recursos técnicos (conhecimento técnico de engenharia e arquitetura). Sem alternativas, a população se instalou como pôde, com seus parcos recursos e conhecimento.
Um problema que ninguém quer conhecer e enfrentar: o da moradia social
A busca de dados fidedignos sobre as condições de moradia e a situação fundiária de nossas cidades é frustrante pela falta de rigor nos levantamentos. O desconhecimento nacional sobre esse universo é gerado, em parte, pela confusão que cerca as titularidades de terras e seus limites. Essa confusão abrange tanto os cartórios de registro de imóveis como os cadastros imobiliários urbanos. O levantamento dos brasileiros que moram em favelas é bastante sub dimensionado pelo IBGE, como não poderia deixar de ser.
Diversos levantamentos (teses acadêmicas, prefeituras, e IBGE) mostram que: 33% da população de Salvador mora em áreas invadidas. 34% em Fortaleza, 40% em Recife, mais de 50% em Maceió, e mais de 20% em Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. A decantada Curitiba exibe um crescimento fantástico de áreas invadidas formando um cerco completo em torno do município central.
O gigantesco crescimento de invasões de terra, em anos recentes, se dá devido à falta de alternativas habitacionais, seja por parte do mercado privado (que não chega a atender 30% da população do país segundo dados da Cibrasec!) seja devido ao diminuto alcance das políticas públicas. Sem subsídios, não há como incorporar a maior parte da população ao mercado, muito menos quando ele continua privilegiando os ganhos especulativos. Bancários, professores secundários, policiais, enfermeiros, todo um contingente de trabalhadores regularmente empregados são excluídos do mercado o que não dizer dos informais, que são em número crescente.
A auto-construção de casas em loteamentos ilegais ou terras ocupadas irregularmente, prática vista com bons olhos por alguns que enfatizavam a capacidade e a solidariedade presente nas iniciativas populares de construção da cidade conduziu, ao final de muitos anos, a um grande desastre. Algumas das maiores aglomerações do mundo, como é o caso de Rio de Janeiro e São Paulo tem regiões inteiras construídas a partir dos esforços fragmentados e espontâneos de um sem número de agentes isolados. O resultado é caótico, como se pode constatar na zona oeste do município do Rio de Janeiro: terras sem lei, seja para a ocupação urbana seja para a resolução de conflitos entre os moradores. Mas a irregularidade urbanística não pode ser atribuída apenas à população sem alternativas.
Na malha urbana do Capão Redondo, distrito de São Paulo onde habitam aproximadamente 800.000 pessoas percebe-se a falta de coordenação entre os agentes que participaram de sua construção, incluindo o Estado com a promoção de conjuntos habitacionais. Loteamentos ilegais, conjuntos habitacionais de promoção pública, "condomínios fechados" de promoção privada e favelas (que ocupam as franjas sobrantes dessas iniciativas) formam uma colcha de retalhos sem qualquer unidade ou articulação. A ausência de qualquer racionalidade na circulação viária, interrompida a cada 500 metros, revela que se trata de um depósito de pessoas. A ausência da gestão pública, a inexistência de qualquer contrato social remete o lugar para a "terra de ninguém" onde "a lei é do mais forte". É compreensível que o distrito apresente alguns dos maiores índices de violência de São Paulo.
Em Goiânia, Brasília e Maceió, a ilegalidade na ocupação do solo, com a promoção de imensos loteamentos populares foi iniciativa única e exclusiva do Estado. Isolados da "cidade oficial" ou da "cidade legal", esses depósitos de pessoas marcados pelo abandono, são produto de iniciativas populistas, bem sucedidas do ponto de vista eleitoral, mas que resultam numa tragédia em termos sociais, urbanos e ambientais.
Como esse crescimento urbano conduz ao desastre ambiental
Dentre as principais conseqüências da falta de alternativas de moradias legais (ou seja, reguladas pela legislação urbanística e inseridas na cidade oficial) está a agressão ambiental. A ocupação de áreas ambientalmente frágeis - beira dos córregos, encostas deslizantes, várzeas inundáveis, áreas de proteção dos mananciais - é a alternativa que sobra para os excluídos do mercado e dos insignificantes programas públicos. Em algumas cidades, como em São Paulo e Curitiba, as regiões onde a ocupação mais cresce são as Áreas de Proteção dos Mananciais, ou seja, áreas produtoras de água potável onde a ocupação é proibida na lei mas não o é na prática da ocupação do território.
Nas grandes e médias cidades os rios, riachos, lagos, mangues e praias tornaram-se canais ou destino dos esgotos domésticos. O esgotamento sanitário atinge 54% dos domicílios em todo o Brasil mas apenas 10% do esgoto coletado é tratado. O restante permanece na rede hídrica. Quanto ao lixo, 29% do montante coletado é tratado. Isso fica evidente na paisagem de qualquer estrada que deixa as metrópoles ou grandes cidades, as quais são acompanhadas durante quilômetros pelo lixo não recolhido.
Para finalizar
A reversão desse quadro exige, antes de mais nada, um conhecimento mais rigoroso sobre ele. O primeiro passo para começar a mudar esse rumo é tirar as instituições e a sociedade do "analfabetismo urbanístico" e criar a consciência da dimensão dos problemas que estão sendo produzidos por esse crescimento urbano sem regulação pública e socialmente desigual. O conhecimento sobre as cidades no Brasil e sobre a cidade em que cada um vive poderia começar na rede escolar.
Instrumentos legais e planos urbanísticos que orientem as cidades em direção ao "crescimento harmônico e equilibrado" (palavras frequentes nas introduções dos Planos Diretores) não faltam. Temos inclusive motivos de otimismo já que em julho de 2001, após 12 anos de promulgada a Constituição Federal de 1988, o Congresso Nacional aprovou o Estatuto da Cidade: um inédito conjunto de medidas que visam a implementação da função social da propriedade. Entretanto, a história do urbanismo brasileiro mostra que, com a ausência dos olhos da sociedade, não há como impulsionar a aplicação de planos e leis que poderiam definir uma nova era do desenvolvimento urbano no Brasil.
Sem querer abusar do trocadilho trata-se de ocupar a lacuna e criar a consciência com ciência, com conhecimento.
Ermínia Maricato é professora-titular, coordenadora do Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É autora do livro Brasil cidades: alternativas para a crise urbana (Vozes, 2001).
http://www.comciencia.br/comciencia/

As novas regiões metropolitanas do Brasil

Nelson Bacic Olic

A Lei Complementar nº 14, de 1973, estabeleceu a noção de Região Metropolitana (RM), aplicando-a às nove principais aglomerações urbanas do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Fortaleza e Belém). Esse dispositivo legal definiu as RMs como áreas administrativas formadas pelos maiores municípios do país e os municípios a eles conurbados. A criação das aglomerações metropolitanas surgiu da necessidade de se resolver um conjunto de problemas que iam além da competência política das esferas de poder municipais. Isoladamente, as prefeituras dos municípios dessas áreas mostravam-se incapazes de planejar e gerir o desenvolvimento de meios de transporte, infra-estrutura viária, serviços de saneamento e abastecimento de água, que englobavam os limites de vários municípios contíguos, cada vez mais interligados ao núcleo urbano principal . A criação das regiões metropolitanas visou fornecer um quadro administrativo capaz de responder às novas realidades surgidas pelo intenso e rápido processo de urbanização do Brasil.Na década de 1990, em função das grandes transformações que ocorreram em nosso país e por conta de mudanças nos critérios internacionais – que além da população passou a levar em conta a estrutura produtiva - o conceito de RM foi estendido para mais 13 áreas, além das nove originais.Essas 22 RMs possuem a seguinte distribuição regional: no Sudeste, estão as de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, e as novas RMs de Vitória, Vale do Aço (MG), Campinas (SP) e Baixada Santista (SP). No Sul estão as de Curitiba, Porto Alegre e as novas RMs de Florianópolis, Vale do Itajaí (SC), Norte/Nordeste catarinense, Maringá e Londrina, estas duas últimas localizadas no norte do Paraná. No Nordeste estão as de Salvador, Recife, Fortaleza e as recém-criadas RMs de Natal e São Luís. No Centro-Oeste, foram criadas a de Goiânia e a Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE) que envolve Brasília e cidades de seu entorno e, finalmente Belém, permaneceu como a única RM do Norte do país.Esse conjunto de áreas metropolitanas concentra cerca de 40% da população brasileira, sendo que, as principais RMs do Sudeste, concentram cerca de metade da população de todo o conjunto das áreas metropolitanas do país.Segundo os novos critérios de classificação, pode-se distinguir áreas onde o processo de metropolização já se verificou de forma plena e áreas onde este processo se encontra em diferentes estágios de evolução. Do ponto de vista quantitativo, considera-se como uma área de metropolização plena aquela em que o principal município tenha pelo menos 800 mil habitantes, já que um núcleo urbano desse porte apresenta funções urbanas diversificadas e especializadas, características típicas de uma grande metrópole.Porém, algumas RMs em fase de crescimento, denominadas “emergentes”, podem apresentar população inferior a 800 mil habitantes. Assim, algumas RMs apresentam um núcleo central que ainda não atingiu uma metropolização plena, mas os municípios ao seu redor podem apresentar características suficientes para serem considerados como aglomerações urbanas integradas. A primeira exigência nesses casos é que esses municípios tenham densidade demográfica igual ou superior a 60 hab/km2, e a segunda, é a de que apresentem uma participação da população economicamente ativa (PEA) em atividades urbanas igual ou superior a 65% do total de pessoas empregadas.As RMs de São Luis, Natal, Londrina, Baixada Santista, Norte-Nordeste Catarinense, Florianópolis, Maringá, Vitória, Vale do Itajaí e Vale do Aço apresentam uma “metropolização emergente”, enquanto as demais já possuem uma “metropolização plena”.As novas regiões metropolitanas da Região SulNa Região Sul um fato a respeito das RMs chama a atenção. Das 13 novas RMs criadas, quase metade delas (cinco), estão localizadas nessa área do país, sendo duas no Paraná e três em Santa Catarina. Ressalte-se também que não foram criadas novas RMs no Rio Grande do Sul, fato que atesta o grande poder polarizador exercido Porto Alegre sobre todo o território do estado.O processo de evolução das novas RMs paranaenses foi bastante peculiar. Até as duas primeiras décadas do século XX, o norte do Paraná, onde se situam as RMs de Londrina e Maringá, era praticamente desocupado. O processo efetivo de ocupação e valorização econômica da região se verificou através da expansão da lavoura cafeeira que, "transbordando" os limites do território paulista, buscou os ricos solos paranaenses numa epopéia que durou do fim do século XIX à primeira metade do século XX.Londrina e Maringá, os dois principais núcleos urbanos regionais, foram fundadas ao longo da década de 1920 na área que ficou conhecida como "Norte Novo", em oposição ao "Norte Velho" (a porção nordeste do estado, ocupada anteriormente) e o "Norte Novíssimo" (setor noroeste, ocupado a partir de meados da década de 1940).Todavia, a falta de cuidados no uso do solo, o efeito devastador de algumas geadas e a queda dos preços do café no mercado internacional provocaram radicais transformações na economia da área a partir dos anos 1970. A substituição da lavoura cafeeira, que utilizava intensivamente mão-de-obra, por lavouras com expressivo grau de mecanização, especialmente a de soja, trouxe grandes modificações. Uma das mudanças mais significativas foi o desencadeamento de processos de repulsão populacional, por conta da liberação de trabalhadores gerada tanto pela mecanização rural quanto pela concentração fundiária.Parte dessa população "liberada" dirigiu-se para outras regiões do país (Centro-Oeste e Norte) em busca de terras disponíveis e baratas ou novas oportunidades de trabalho. Além disso, muitos trabalhadores rurais se deslocaram para centros urbanos do próprio estado. Esses fatos, no entanto, não modificaram a posição do Norte do Paraná como a área mais dinâmica do estado, inferior apenas à região da capital.Já Santa Catarina foi o estado em que foi criado o maior número de novas RMs. As do Norte/Nordeste catarinense (onde está Joinville, a capital econômica do estado) e do Vale do Itajaí (que tem em Blumenau seu núcleo urbano principal), têm um dinamismo econômico que se rivaliza ou é superior ao da capital.A Grande Florianópolis, diferentemente do que acontece em outros estados, não é a mais importante RM estadual. A capital catarinense, núcleo metropolitano principal dessa RM, situa-se na Ilha de Santa Catarina e, desde sua origem, quando se chamava Nossa Senhora do Desterro, serviu como ponto fortificado dos portugueses, destinado a defender e povoar o litoral sul do Brasil. Com a chegada de casais oriundos das ilhas dos Açores, a cidade cresceu e adquiriu características culturais peculiares.A imigração, no século XIX fez surgirem cidades economicamente mais importantes no estado, fazendo com que Florianópolis por muito tempo, tivesse apenas a função de centro político-administrativo. Contudo, nas últimas décadas, com a melhoria das estradas, a capital rompeu o relativo isolamento que mantinha em relação ao resto do estado. Ao mesmo tempo, suas 42 praias passaram a atrair turistas de outras regiões do Brasil e de países vizinhos, especialmente da Argentina e do Uruguai. Com isso, o comércio cresceu e a mancha urbana se estendeu para o continente.

segunda-feira, junho 18, 2007

Diante da fome e da escassez de água potável, o que significa plantar energia

Agência Carta Maior: "Diante da fome e da escassez de água potável, o que significa plantar energia"

sexta-feira, maio 25, 2007

IEstudo revela 60 anos de transformações sociais no país

Entre os Censos de 1940 e 2000, a população brasileira cresceu quatro vezes. O Brasil rural tornou-se urbano (31,3% para 81,2% de taxa de urbanização). Nesse período, houve o envelhecimento da população brasileira, que na faixa de 15 a 59 anos, aumentou de 53% para 61,8%. O número de pessoas autodeclaradas pardas aumentou de 21,2% para 38,5%, reflexo do processo de miscigenação racial. Quanto à religião, nesses 60 anos, os evangélicos cresceram de 2,6% para 15,4% da população. O país conseguiu reduzir em cinco vezes a taxa de analfabetismo, que caiu de 56,8% para 12,1%. A taxa de escolarização, entre crianças de 7 a 14 anos, aumentou de 30,6% para 94,5%. Já o percentual de casados cresceu de 42,2% para 49,5%. Os brasileiros natos passaram de 96,6% para 99,6%. No período em foco, agricultura, pecuária e silvicultura, que em 1940 representava 32,6% da população ocupada, declinou para 17,9%, em 2000.
Leia mais:
IBGE :: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Idade da população ocupada aumentou nos últimos 60 anos

CLARICE SPITZda Folha Online, no Rio de Janeiro

Estudo do IBGE mostra mudança na distribuição dos trabalhadores por idade no mercado de trabalho entre 1940 e 2000. Em 1940, com a população brasileira mais jovem, os trabalhadores ocupados estavam em sua maioria na faixa de 10 a 19 anos. Eles correspondiam a 33,7% da população ocupada.
Já em 2000, a maior participação estava na faixa etária entre 20 e 29 anos (28,4%). Nessa faixa etária de trabalhadores, as atividades de agricultura, pecuária, silvicultura, além de atividades domésticas --que incorporam atividade primária de subsistência-- e escolares ocupavam maior percentual de trabalhadores em 1940.
Já em 2000, as atividades ligadas ao comércio, reparação de veículos automotores e de objetos pessoais e domésticos, além da indústria de transformação empregavam mais. A agricultura, pecuária e silvicultura ocupavam a terceira posição.
Em 1940, 28,9 milhões de pessoas de 10 anos ou mais estavam empregadas. Em 2000, esse contingente subiu para 65,6 milhões, o que corresponde a 48,5% do total de pessoas de 10 anos ou mais.

quarta-feira, maio 23, 2007

'Geografia é fundamental para compreender a importância do espaço', diz professora

Arlete Moysés Rodrigues, docente da Unicamp, fala sobre sua experiência na área. Ela já trabalhou na Prefeitura de São Paulo e no Ministério das Cidades.
Luísa Brito Do G1, em São Paulo entre em contato



A professora Arlete Moysés, que ensina geografia na Unicamp (Foto: Robson Fernandes/Agência Estado)
Professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp ), com pós-doutorado na área de geografia humana, Arlete Moysés Rodrigues, 63, diz que escolheu a profissão porque tinha vontade de “descortinar o conhecimento sobre o mundo”.

Além do trabalho na área acadêmica ela atuou durante mais de dez anos na Prefeitura de São Paulo e também foi, durante o ano de 2003, diretora da secretaria executiva do Ministério das Cidades. Para Arlete, a geografia é “fundamental para compreender a sociedade e entender a importância do espaço no mundo atual”. Leia os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao G1.
G1 - Por que a senhora quis ser geógrafa?
Arlete Moysés Rodrigues - Queria descortinar o conhecimento sobre o mundo. Quando fiz faculdade, na USP, tinha vontade de ensinar para o [ensino] fundamental, depois fui para o superior.
G1 - Em quais lugares a senhora trabalhou?
Arlete - Fui funcionária da prefeitura de São Paulo, onde participei do primeiro cadastro de favelas de São Paulo, em 1972 e 1973. Sempre trabalhei na área de habitação e bem-estar social. Saí de lá em 1982 e no ano seguinte entrei na Unicamp. Entre 1989 e 1991 me afastei para fazer parte da equipe da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano da prefeitura de São Paulo. Em 1999 me aposentei , mas não parei de dar aula na pós-graduação e orientar mestrado e doutorado. Em 2003 me afastei novamente para trabalhar no ministério das Cidades.
G1 - O que é a geografia na visão da senhora?
Arlete - Ela é fundamental para compreender a sociedade e entender a importância do espaço no mundo atual. Esse espaço tem sido ocultado para parecer que não é importante, mas ninguém vive sem ocupar espaço.
G1 - O que a senhora mais gosta na área?
Arlete - Do trabalho com geografia urbana, de entender a produção do espaço urbano, fazer a análise de todos os agentes que produzem a cidade.
G1 - O que é essencial para ser um bom profissional?
Arlete - Ler muito e fazer reflexão do que lê. Fazer pesquisa de campo e conhecer novas técnicas como instrumento para aprofundar o conhecimento.
G1 - Que dicas a senhora daria para quem está começando agora na profissão?
Arlete - Antes de definir a área que vai seguir, a pessoa deve procurar compreender os processos da produção, do espaço e do território e vê para qual área tem aptidão.
G1 - Como está o mercado de trabalho para o geógrafo?
Arlete - Acho que está bom tanto para a licenciatura como para o bacharelado, porque há ausência de geógrafos que possam atuar no planejamento territorial e há uma grande demanda nessa área.
G1 - O que a senhora acha do planejamento urbano das cidades brasileiras?
Arlete - Um bom planejamento só pode ser efetivo se for feito com a participação social de todos. Isso é importante para que numa metrópole como São Paulo [por exemplo] se viva melhor no futuro.
G1 - Como a a senhora analisa a forma que as pessoas encaram as questões ambientais?
Arlete - As pessoas jogam uma cortina de fumaça sobre a realidade. Procura-se a resolução dos problemas onde eles não são gerados. Por exemplo, costuma-se culpar as pessoas pela poluição do ar, porque ninguém quer deixar o carro uma vez por semana em casa. Mas não se analisa o que a indústria automobilística usa no automóvel que gera tanta poluição. Fala-se como se o problema fosse causado pelo consumidor.
G1 - Qual o futuro da geografia?
Arlete - É mostrar a importância do espaço e do analista do espaço, ou seja, o geógrafo.

sábado, maio 19, 2007

EUA proíbem acesso a imigrantes presos, acusa ONU


Um funcionário do setor de direitos humanos das Nações Unidas diz que sua visita a um centro de detenção de imigrantes em Nova Jersey foi barrada na segunda-feira. Essa foi a segunda ocasião em que o acesso a um centro de detenção de imigrantes lhe foi negado, nos Estados Unidos, em sua viagem de inspeção de uma semana.
O funcionário, Jorge Bustamante, encarregado pela ONU de redigir um relatório especial sobre os direitos humanos dos migrantes, disse ter sido informado no final de semana que sua visita a imigrantes detidos na Instituição Corretiva do Condado de Monmouth, em Freehold, marcada para a segunda-feira, havia sido cancelada. Bustamante diz que os motivos do cancelamento não lhe foram explicados.
No dia 7 de maio, Bustamante foi proibido de visitar o Centro de Detenção Familiar T. Don Hutto, em Taylor, Texas, que abriga famílias de imigrantes ilegais, incluindo crianças. Funcionários do Serviço de Imigração e Alfândega, o departamento federal que supervisiona o centro, disseram ter cancelado a visita devido a um processo judicial sobre as condições de vida dos detidos no local, movido pela União Norte-Americana pelas Liberdades Civis (ACLU).
Em carta de protesto enviada na segunda-feira a Zalmay Khalilzad, embaixador dos Estados Unidos à ONU, Bustamante afirma que o Departamento de Estado havia aprovado seu itinerário. "Minha interpretação é que alguém no governo dos Estados Unidos não está orgulhoso quanto ao que vem acontecendo nesses centros", afirmou Bustamante em entrevista.
Um porta-voz do Departamento de Estado, Bill Strassberger, disse que ao que sabia a visita ao centro de detenção em Nova Jersey havia sido cancelada pelo xerife do condado de Monmouth, Joseph Oxley. Strassberger confirmou que o Departamento havia ajudado Bustamante a organizar as duas visitas, e que a organização estava decepcionada por não terem acontecido. "Queremos demonstrar que não temos nada a esconder", disse o porta-voz.
A xerife assistente Cynthia Scott, falando em nome de Oxley, disse que Bustamante é que havia cancelado a visita, por se recusar a aceitar "condições razoáveis" de acesso. "Ele cancelou, não nós", afirmou Scott.
Bustamante visitou um centro federal de detenção de imigrantes ilegais em Florence, Arizona. Ele declarou que as instalações pareciam limpas e "bem administradas".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times

quarta-feira, abril 04, 2007

O MEIO RURAL E O URBANO


30 de janeiro de 2007
por Geomundi


Somente a sociedade humana “habita” o planeta, no sentido de transformá-lo segundo um objetivo pré-determinado. As metamorfoses do espaço habitado acompanham a maneira como a sociedade humana se expande e se distribui, acarretando sucessivas mudanças demográficas e sociais em cada continente (mas também em cada país, em cada região e em cada lugar). O fenômeno humano é dinâmico e uma das formas de revelação desse dinamismo está, exatamente, na transformação qualitativa do espaço habitado.

A noção de distribuição espacial da humanidade, se considerada apenas em relação às condições naturais, é insuficiente. O hábitat, isto é, o espaço construído pelo homem, era antigamente o seu lugar de residência e de trabalho, e o espaço destinado às relações que uma vida social geograficamente confinada gerava, por meio do processo produtivo, tanto nos seus aspectos materiais como nos seus aspectos não materiais.

Considerando a totalidade da superfície terrestre, aparecem grandes espaços que estão quase vazios: são as zonas polares e as terras submetidas durante sete ou oito meses a temperaturas muito baixas, ou ainda, as regiões de grande altitude. As extensões quentes e secas também formam parte do conjunto muito debilmente povoado. A Amazônia (América do Sul) e o Congo (África) não contam, em média, com mais do que 2 ou 3 habitantes por km² . Ao contrário, na Ásia encontram-se regiões de clima quente e úmido fortemente povoadas. E as mesmas desigualdades ocorrem nas zonas temperadas.

Para explicar esses contrastes de concentração de população é necessário fazer as distinções abaixo.

Grandes regiões industriais: cujo povoamento mais importante data do século XIX. Sua ocupação foi provocada pelos efeitos da Revolução Industrial, determinando uma concentração maciça da população nas cidades.

Grandes regiões agrícolas: nas quais também existem desigualdades de povoamento por causa das condições geográficas e históricas.

No decorrer dos séculos, tanto o crescimento econômico como o crescimento demográfico foram muito lentos em todos os países. Até o século XIX, os homens eram essencialmente agricultores.

Mas, a partir desse século, ocorreu uma transformação demográfica cujos múltiplos efeitos passaram a ter importância cada vez maior, como conseqüência das mudanças econômicas, sociais, políticas e culturais que se produziram desde o início do século XIX, a cujo conjunto se denominou Revolução Industrial. A partir de então, a agricultura se transformou; o comércio e os meios de transporte sofreram grande impulso. As cidades se multiplicaram e passaram a ser cada vez mais importantes.

A divisão entre os setores primário (agricultura e pecuária), secundário (indústria) e terciário (comércio e serviços) aprofundou-se em escala mundial, e a população economicamente ativa (aquela efetivamente engajada na economia) empregada no setor secundário passou a assumir importância cada vez maior na força de trabalho mundial.

Cerca de 2,5 bilhões de homens e mulheres vivem nas zonas rurais de todo o mundo, e 2 bilhões deles são camponeses que cultivam cerca de 1,5 bilhões de hectares, ou seja, aproximadamente 10% das terras emersas. Mas a distribuição das riquezas de que dispõem esses diferentes grupos não corresponde à distribuição da população.

Boa parte dos meios de produção está concentrada em países que contam com uma agricultura muito produtiva, concentrando também a produção industrial. Esses países possuem, ainda, potencial científico e tecnologia avançada.

A agricultura, hoje, não é mais a atividade principal dos países desenvolvidos. No entanto, continua sendo o meio de vida da maioria dos habitantes dos países subdesenvolvidos.

A partir do século XIX, a agricultura sofreu grandes modificações em conseqüência da transformação dos modos de produção no espaço, passando de uma agricultura de subsistência para uma agricultura comercial. Mas, em muitos casos, os camponeses que têm de cultivar para a exportação não conseguem preço suficiente para os produtos de seu trabalho nem chegam a produzir o suficiente para sustentar a família.

As atividades agrícolas praticadas por povos diferentes são extremamente variadas. Existem vários sistemas de cultivo, isto é, o conjunto de técnicas empregadas numa exploração agropecuária e de utilização do solo.

Também temos de levar em conta as diferenças de estrutura agrária. Elas se distinguem nas formas de propriedade da terra (propriedade coletiva, pequena propriedade privada, grande propriedade privada), cujas colheitas podem ficar com o proprietário ou ser repartidas entre o proprietário e os cultivadores.

Às vezes a terra pertence a quem a trabalha, seja um grupo social (propriedade ou exploração coletiva) ou uma pessoa (pequeno proprietário). Na maioria dos casos, porém, a terra não pertence a quem a cultiva.

Hoje, os sistemas agrícolas dos países desenvolvidos são, geralmente, intensivos e de produtividade alta, pois os meios técnicos aplicados na produção são consideráveis e apresentam grandes investimentos de capitais. A aplicação desses capitais tem como objetivo prover determinado produto; e a busca dos lucros é o que determina a combinação de cultivos escolhida, sem perder de vista as demandas do mercado.

Como conseqüência da expansão européia em áreas escassamente povoadas, a agricultura dos países “novos” (Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália) nasceu quase ao mesmo tempo que a Revolução Industrial, que foi lhes fornecendo os meios técnicos para valorizar os imensos espaços agrícolas disponíveis.

A instalação da agricultura comercial nos países tropicais, destinada a abastecer os países industrializados, adquiriu a forma de grandes plantações coloniais. As maiores plantações se encontram na América Latina, que oferece produtos de grande valor no mercado internacional. No entanto, as populações que nelas trabalham são muito pobres, já que a colheita pertence a grandes proprietários.

O aumento populacional e o desenvolvimento têm vínculos complexos. No passado, por meio da intensificação da agricultura e do aumento da produtividade, as nações puderam enfrentar as crescentes pressões populacionais sobre a terra disponível.

A pressão populacional já está forçando os agricultores tradicionais a trabalharem mais, quase sempre em fazendas cada vez menores, situadas em terras marginais, apenas para manter a renda familiar. Na África e na Ásia, a população rural praticamente dobrou entre 1950 e 1985, com um correspondente declínio na disponibilidade de terra. O rápido aumento populacional também cria problemas urbanos de cunho econômico e social, que ameaçam impossibilitar a administração das cidades.

O aumento populacional acelerou-se em meados do século XVIII, com o advento da Revolução Industrial e das correspondentes melhorias na agricultura, não só nas regiões mais desenvolvidas como também em outras. A fase recente de aceleração começou por volta de 1950, quando as taxas de mortalidade tiveram redução acentuada nos países em desenvolvimento.

Hoje, o aumento populacional concentra-se nas regiões subdesenvolvidas da Ásia, da África e da América Latina, responsáveis por 85% do aumento da população mundial a partir de 1950.

O aperfeiçoamento das comunicações possibilitou grandes deslocamentos de pessoas, às vezes como uma reação natural ao aumento das oportunidades econômicas em determinadas áreas. Isso aumentou rapidamente a mobilidade da população, acelerando as migrações internas e externas.

Grande parte dos deslocamento dá-se do campo para a cidade. Em 1985, cerca de 40% da população mundial vivia em cidades. A magnitude da migração para as cidades é comprovada pelo fato de que, a partir de 1950, o aumento população urbana foi maior que o aumento da população, tanto em termos percentuais como absolutos.

Esse deslocamento é mais impressionante nos países em subdesenvolvidos, nos quais o número quadruplicou nesse período.

No final deste século, quase metade do mundo estará vivendo em áreas urbanas desde pequenas cidades até megalópoles. O sistema econômico mundial está se tornando cada vez mais urbano, com redes justapostas de comunicações, de produção e de mercadorias.

Tal sistema, com seus fluxos de informação, energia, capital, comércio e pessoas, gera a coluna dorsal do desenvolvimento nacional. As perspectivas de uma cidade, grande ou pequena, dependem essencialmente do lugar que ela ocupa no sistema urbano, nacional e internacional.

Em muitas nações, certos tipos de indústria e de empresa de serviços estão se desenvolvendo em áreas rurais. Mas essas áreas vêm recebendo serviços e infra-estrutura de alta qualidade, com sistemas avançados de telecomunicações, que fazem com que sua atividades sejam parte integrante do sistema urbano-industrial nacional e global. De fato, o interior está sendo “urbanizado” cada vez mais aceleradamente.

O século XX é o da “revolução urbana”. Depois de 1950, o número de pessoas que vivem nas cidades quase triplicou; nas regiões mais desenvolvidas, a população urbana dobrou; no mundo menos desenvolvido, quadruplicou.

Em muitos países em desenvolvimento, as cidades têm crescido muito além do que jamais se poderia imaginar. Poucos governos de cidades do mundo em desenvolvimento, cujas populações crescem a um ritmo acelerado, dispõem de poderes, recursos e pessoal treinado para lhes fornecer as terras, os serviços e os sistemas adequados a condições não-degradantes de vida: água potável, saneamento, escolas e transportes.

O resultado disso se revela na proliferação de assentamentos ilegais de habitações toscas, nas aglomerações excessivas e na taxa de mortalidade altíssima, decorrente de um meio ambiente insalubre, por causa de problemas de infra-estrutura deteriorada, degradação ambiental, decadência do centro urbano e descaracterização dos bairros.

Os desempregados, os idosos e as minorias étnicas e raciais podem mergulhar numa espiral descendente de degradação e pobreza, pois as oportunidades de emprego diminuem, e os indivíduos mais jovens e mais instruídos vão abandonando os bairros decadentes.

No mundo industrializado, as cidades também são responsáveis por problemas de alcance global, tais como o consumo de energia e a poluição ambiental. Muitas delas obtêm seus recursos e sua energia de terras distantes, com fortes impactos coletivos sobre essas terras distantes.

Em geral, o crescimento urbano muitas vezes vem antes do estabelecimento de uma base econômica sólida e diversificada para apoiar o incremento da infra-estrutura, da habitação e do emprego. Em muitos lugares, os maiores problemas estão ligados a padrões inadequados de desenvolvimento agrícola e urbano.

A crise econômica mundial dos anos 80 não resultou somente em menores rendas, maior desemprego e na eliminação de muitos programas sociais. Ela também diminuiu drasticamente a já baixa prioridade dada aos problemas urbanos, aumentando a deficiência crônica dos recursos necessários para construir, manter e administrar as cidades.

As interações urbanas contemporâneas

Os sistemas urbanos constituem redes, formadas por um conjunto hierarquizado de cidades com tamanhos diferentes, ou seja, onde se observa a influência exercida pelos centros maiores sobre os menores. A hierarquia urbana se estabelece a partir dos produtos e dos serviços que as cidades têm para oferecer. Quanto mais diversificada for a economia de uma cidade, maior será a sua capacidade de liderar e influenciar os outros centros urbanos com os quais mantém relações.

Assim se cria um sistema de relações no qual as cidades mais desenvolvidas lideram a rede urbana. As cidades maiores influenciam as cidades médias, e estas influenciam as cidades menores.

As metrópoles correspondem a centros urbanos de grande porte: populosos, modernos e dotados de graves problemas de desigualdades sociais. Nelas predomina o trabalho assalariado, que, aliado ao tamanho da população, contribui para a formação de um significativo mercado consumidor. Para atender a esse mercado, os estabelecimentos comerciais se multiplicam e as redes de prestação de serviços de toda espécie se ampliam, o que configura um grande desenvolvimento do setor terciário da economia.

A concentração populacional amplia a oferta de mão-de-obra e, desse modo, atrai investimentos produtivos que contribuem para o desenvolvimento da indústria, com a expansão do setor secundário não apenas na metrópole, mas também nas regiões circunvizinhas.

Quando os limites físicos das cidades estão muito próximos, formam-se conurbações. Isso ocorre principalmente nas regiões mais desenvolvidas, onde geralmente há uma grande rodovia, um porto ou sistemas de comunicação aperfeiçoados que expandem continuamente a área física das cidades.

Ao contrário do que normalmente se considera, a megalópole não é uma megametrópole, mas uma conurbação de metrópoles. É encontrada em regiões de intenso desenvolvimento urbano, e nelas as áreas rurais estão praticamente ausentes.

As principais megalópoles contemporâneas são: Boswash. (localiza-se no nordeste dos Estados Unidos); Chipits,(também está localizada nos Estados Unidos, ao sul dos Grandes Lagos); Tokkaido,(corresponde a uma das megalópoles mais populosas do mundo. Localizada no sudeste do Japão); Renana, (localizada na Europa ocidental, junto ao vale do Reno).

A urbanização corresponde principalmente a um processo de transferência de populações das zonas rurais para as cidades; quando ele é muito intenso, recebe o nome de êxodo rural.

Os países mais desenvolvidos - No século XIX, a urbanização foi mais intensa nos países que realizaram a Revolução Industrial e que constituem hoje países desenvolvidos. As novas possibilidades de trabalho na indústria e no comércio atraíram as populações da zona rural para as cidades.

No pós-guerra, a concentração humana e a elevação do poder aquisitivo das populações dos países mais desenvolvidos produzi­ram um grande aumento do consumo de bens e serviços, que favoreceu a expansão do setor terciário da economia. Como nesse período também ocorreu um grande desenvolvimento da tecnologia industrial, a produtividade aumentou e as necessidades de mão-de-obra se reduziram.

Os países subdesenvolvidos - O século XX se caracterizou pela urbanização dos países subdesenvolvidos. O ritmo se acelerou a partir de 1950, devido ao aumento das taxas de crescimento populacional e, em muitos desses países, à industrialização, propiciada pelos significativos investimentos das empresas multinacionais. Formaram-se grandes cidades, para as quais as populações da zona rural se deslocaram em busca de melhores condições de vida, pois era ali que a industrialização estava mais presente, com maior disponibilidade de emprego, conforto e ascensão social.

Nessas cidades, contudo, a industrialização adotou um padrão tecnológico muito mais moderno do que o utilizado pelas indústrias do século XIX, o que resultou na criação de menos empregos. Por isso, mui­tas pessoas que se deslocaram para as cidades não encontraram trabalho e passaram a viver em situação de extrema pobreza, em locais insalubres, como favelas e cortiços sem luz, água, rede de esgotos, transportes coletivos e demais serviços urbanos.

Por isso, nessas cidades o setor terciário informal - aquelas atividades não-regulamentadas, como a dos camelôs e biscateiros - cresce mais que o formal. Essa situação é chamada de hipertrofia do terciário.

América Latina - É a região mais urbanizada entre o conjunto dos países menos desenvolvidos e, desde o início da década de 1970, a população urbana é superior à população rural.

Essa região foi a primeira a conquistar a independência política, a constituir uma economia de mercado e a desenvolver atividades industriais, ainda durante o século XIX. Desde o início do século XX, e principalmente após 1940, outros fatores contribuíram para acelerar a urbanização.

A concentração de terras herdadas do período colonial se perpetuou no latifúndio, o que agravou a pobreza rural e estimulou a população de origem camponesa a migrar para as cidades. Além disso, muitas propriedades rurais se modernizaram, adotando procedimentos administrativos característicos das grandes empresas urbanas e passando a utilizar máquinas agrícolas em grande escala, que reduziram a necessidade de mão-de-obra.

Em quase toda a América Latina, os índices de urbanização são elevados, com a população urbana ultrapassando 70% na maior parte dos países, com exceção da região da América Central, da Bolívia e do Paraguai.

A urbanização da África - A maior parte da população vive na zona rural, pois as atividades agrárias predominam na estrutura econômica de quase todos os países do continente.

Mesmo assim, desde o início da década de 1970 os países da África são os que apresentam as taxas de urbanização mais eleva­das entre os países menos desenvolvidos, com um aumento superior a 5% ao ano. Em 1960, a população urbana da África correspondia a 210 milhões de habitantes; hoje corresponde a mais de 420 milhões.

O ritmo de transferência de populações do campo para a cidade é crescente, e para isso contribui o grave estado de pobreza da maior parte das sociedades africanas. Cerca de 216 milhões de pessoas, ou 47,8% da população absoluta, vivem abaixo da linha de pobreza delimitada pela Organização das Nações Unidas (ONU), com uma renda anual inferior a 370 dólares.

A urbanização africana está relaciona­da com a ampliação da economia de exportação, a partir de 1950, quando houve um grande aumento do consumo mundial de matérias-primas, combustíveis fósseis e produtos agrícolas.

As áreas de urbanização mais acentua­da são a República da África do Sul, um país industrializado; os países que se localizam em torno do golfo da Guiné, com sua indústria petrolífera; e a região do litoral do mar Mediterrâneo, de onde parte importante ro­ta marítima internacional, o que lhe permite manter uma forte integração econômica com os países europeus.

A urbanização na Ásia - O continente mais populoso do mundo, não tem uma tradição urbana. A população ainda é predominantemente rural, mas desde a década de 1960 a migração do campo para as cidades aumentou muito os índices de urbanização.

Calcula-se que no início do século XXI cerca de 2 bilhões de asiáticos estarão vivendo em cidades, o que pode significar o aumento da pobreza. Hoje, a situação já é dramática. Na Índia e em Bangladesh, na Ásia meridional, cerca de 562 milhões de pessoas, ou 49% da população, vivem com uma renda anual inferior a 370 dólares por habitante, tal como no continente africano.

A industrialização dos países conhecidos como tigres asiáticos (Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong), ocorrida nas últimas décadas, e a recente ascensão econômica dos chamados novos tigres (Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas) aumentaram a oferta de trabalho, transformaram suas principais cidades em pólos de forte atração populacional e contribuíram para acelerar a urbanização asiática.